junho 30, 2011

Textos de Eduardo Rocha


Pinduca: 40 anos de ritmo
Por Eduardo Rocha


Se alguém chegar em uma festa e anunciar que o artista a se apresentar é Aurino Quirino Gonçalves, com 74 anos, nascido no município de Igarapé-Miri, é bem capaz de ninguém saber de quem se trata. Mas, ao se mencionar que Aurino é o cantor Pinduca, aí a coisa é outra.
 
Esse nome tem empatia, semelhante ao que se observa quando surge nos palcos amazônidas ou mesmo fora da região a figura de um homem com uma roupa brilhante, com um chapéu grande na cabeça e dando voltas de um lado a outro, cantando músicas com com suingue típico de quem nasceu para entoar os ritmos da Amazônia. Pinduca contabiliza 40 anos de carreira, uma carreira vitoriosa para quem sabe que dançar carimbó, siriá ou lundu vale a pena em qualquer época do ano.
Em anos anteriores, as canções de Pinduca eram ouvidas nas emissoras de rádio com muito mais frequência que hoje em dia. Tanto que a cantora Eliana Pitman fez sucesso nacional cantando músicas gravadas por ele, e bem interpretadas por ela própria. Entretanto, as rádios não deixam de tocar a música alegre desse artista, porque fala de perto do jeito de ser dos paraenses de Belém e do interior do Estado. A partir dessa matéria-prima (o jeito de ser do paraense, com humor e sempre a fim de uma boa festa para dançar), Pinduca contribuiu muito e contribui na divulgação da música e da dança dos amazônidas, tanto para gerações que moram por aqui, na região, como, também, para gente de outros centros do País. Aurino pode passar despercebido num salão, mas Pinduca, nunca.
Até porque Pinduca vem de uma famíia de músicos, e tem hoje um filho dele tocando com ele nos bairros de Belém e municípios do interior, quando não, fora do Pará. "Sou cantor nato, tive a oportunidade de divulgar o carimbó através do disco e fui em frente", afirma Pinduca, hoje tenente da reserva da Polícia Militar do Pará. No começo da carreira, ele teve apoio dos governadores e dos comandantes militares da época para conciliar o trabalho como militar e a música. "Felizmente, são muitos sucessos na carreira, mas, com certeza, nunca deixo de cantar 'Sinhá Pureza', 'Carimbó do Macaco' e 'Carimbó no mato' ". Para Pinduca, até hoje o rádio é fundamental na divulgação do trabalho dos artistas, em particular, paraenses. "É através do radio que o povo tem conhecimento das músicas dos cantores, principalmente", ressalta. Pinduca não é de usar muito a internet, mas sabe ser essa uma ferramenta indispensável para a divulgação da música no mundo, até porque, como salienta, existem vários tipos de música "mas, sem dúvida, o carimbó é apreciado por todos". Como argumento a favor dessa afirmativa, a cada dia fusões do carimbó com outros ritmos  surgem na cena nacional e internacional e esse ritmo amazônida nunca deixa de embalar seus ouvintes.
Em suas gravações e apresentações, Pinduca adota ritmos variados, e define o repertório a partir do que ele mesmo gosta, porque se entende como um cantor versátil, e também considera o local do show. Pinduca informa que trabalha em um novo CD para breve, e mantém uma agenda de shows, a qual esteve com muitas exibições ao longo da quadra junina. "Tenho alguns shows agendados, mas tudo normal e sem stress, não chegou a 30 shows em julho (risos)". A seu lado no palco, Pinduca costuma ter como tecladista seu filho Douglas, com 45 anos. "A música vem no sangue, e isso é muito bom", completa. Ninguém sabe como serão os próximos 40 anos da carreira de Pinduca, "uma pessoa simples, popular e sempre de bem com a vida", como ele próprio se define. Mas, o que sabemos é que o Pará fica mais Pará quando Pinduca está no palco, botando todo mundo para dançar um bom carimbó.

Imagem: Google

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24/062011

A poesia é uma canoa dançando no rio
Por Eduardo Rocha

“ESSE RIO É MINHA RUA”. Se o santareno Ruy Barata tivesse escrito só esse verso, já seria algo genial para traduzir toda uma realidade amazônida. Faz tempo que Ruy escreveu o verso, mas ele e Ruy permanecem atuais: ao se saber do aproveitamento e do desperdício da água, do que pode ser rentável ou destruidor na flora e na fauna da região, nos embates sobre a divisão territorial do Pará.
Nos conflitos fundiários, no tráfico de pessoas, na prostituição, na fome e miséria de crianças e famílias inteiras ou despedaçadas catando lixo diante da abundância regional, nas discussões sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte, nos casarios e azulejos históricos em esquecimento ou já perdidos, nos assaltos sem conta. Sobretudo, na vida das pessoas que moram na região, perto dos rios.
Mas Ruy Barata não escreveu apenas esse verso. Escreveu outros, tão íntimos de quem mora nessa face do mundo. Ruy permanece escrevendo poemas para quem gosta de ler e descobrir-se lendo, para quem não fica só vendo o rio passar e vai mesmo atrás do peixe, mas sem desmatar nada, sem destruir nada que não possa ser renovado depois. Porque a cidade ou a aldeia é só uma trilha aberta no meio da mata amazônica, por onde caminham todos ao Norte.
Neste 25 de junho de 2011, Ruy Barata completaria 91 anos de idade. Santarém fez 350 anos de vida no último 22 de junho. Mês junino, de festa em Belém, Santarém, na Amazônia. As cidades são pequenas porções de terra cercadas de rios, onde ecoam os curimbós, os banjos, as maracas, onde as morenas com cheiro de patchouli dançam perto das águas, enlouquecendo botos e pescadores de plantão. Seja na madrugada, seja ao meio-dia, as águas seguem seu curso... formando igarapés, mares e mares de gente perto de guarás, de onças, de uirapurus, do açaí e dos … tucunarés.
As águas seguem seu curso, contornando a poluição que vem dos pneus, das garrafas de plástico, da vida estressada nos escritórios, supermercados e shopping centers, por “graça” de um poder diuturno em campanha. Mas, mururés e peixes ainda existem nessas ruas de águas, caboclos, negros e indígenas em canoas ou aviões ainda se enveredam em sua linguagem-canoa. A poesia há de vencer. “ESSE RIO É MINHA RUA”. Tão simples e tão verdadeiro, como acordar e dormir em qualquer data na Amazônia. Por exemplo, em 25 de junho de 1920, quando nascia um poeta genial, rio de muitos versos seguindo nas águas...sempre.
OBS: sugestão para conferir versos de Ruy Barata:  www.culturapara.com.br 

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14/06/2011

Esporte não é agressão
Por Eduardo Rocha

Você, hoje está na faixa dos 40 anos de idade, lembra-se de quando tinha 20 anos de idade? Talvez sim, talvez, não. Mas a sua teimosia de nadar contra a maré saiu vencedora até agora. Você pode olhar para trás e ver uma quantidade nada reduzida de conquistas, mesmo quando ainda tinha apenas 20 anos de idade, e talvez até gostasse de jogar bola, em geral no caso dos homens.
O futebol permanece apaixonante, apesar de tanta falta de entusiasmo entre os dirigentes e atletas por essas bandas do Brasil, em especial no futebol paraense, amargando senão a sua pior crise na história. Mas o torcedor, torcedor mesmo NÃO DESISTE NUNCA. Torcedor é aquele que não vai para a frente da sede do clube, como um homem transtornado que eu e minha mulher vimos, após a eliminação do time no Parazão 2011, num domingo à noite, com um tijolo enrolado na bandeira com o escudo da agremiação, a fim de destruir o que já está em muito destruído, no Clube do Remo, e precisa ser reconstruído.
Torcedor não joga pedra na sede do clube e nem agride jogador, porque aos 40, 60 ou 100 anos de idade não vai ter mais tempo para corrigir essa prova de desamor ao time do coração. Torcedor não quer a cabeça de técnico, não agride jogadores, como fizeram com o goleiro Lopes na mesma sede social do clube. Torcedor deve possuir a paciência e ao mesmo tempo a objetividade de um Gandhi, um padre Bruno Sechi, um Chico Xavier, um Martin Luther King, que sabem da passagem do tempo mas não se afobam, porque sempre virão novos campeonatos, mas é preciso se buscar, a cada dia, um mundo mais justo, um novo tempo. 
Torcedor vibra com as conquistas do futebol, como a do jovem Kleyton Bruno Batista Marques, que nos seus 20 anos de idade, acaba de levar o prêmio como o melhor atleta de futsal no Troféu Romulo Maiorana 2011. Estudante do quinto semestre de Educação Física e filho do técnico de edição João Marques, profissional das TVs Cultura e Record, tem muitos planos, e, apesar de ainda não ser nenhum filósofo, sabe que existem vitórias e derrotas no esporte e na vida. Antes da final do Campeonato Paraense de Futebol, com dois jogos a partir do próximo 19 de junho, vale a pena ver o que pensa um campeão, mas acima de tudo um torcedor que acredita no futebol:
 - Há quanto tempo pratica futsal? Como começou nesse esporte? Por quais clubes já atuou? Quais os títulos conquistados? Qual o seu clube atual? Por que você atua nesse clube, atualmente? 
Pratico futsal há seis anos. Eu comecei no esporte por incentivo de familiares, passei em um teste("peneira") e acabei entrando no desporto. Já atuei pelo Clube do Remo (de 2005 a 2007), no Joinville/Krona/dallponte (SC)(2008 a 2009), e no Esmac/Ananindeua (2009 a 2011), tendo participação na Seleção Paraense ( sub-17 e sub-20). Os títulos que consegui conquistar são: campeão e artilheiro(11 gols) do Campeonato Brasileiro de Seleções Sub-20, campeão paraense (sub -15 e sub -17), bicampeão paraense (sub-20 e adulto), campeão da Copa Pará Maranhão (sub-15), campeão da Liga Norte (adulto), artilheiro do Campeonato Paraense Sub-20 (24 gols) e artilheiro da temporada 2010 no futsal do Pará (47 gols), vencedor do Troféu Romulo Maiorana 2011, tricampeão e artilheiro (sete gols-2011) do Torneio Bené Aguiar (adulto). Atualmente, atuo pelo Esmac/Ananindeua,  por ser a equipe mais vitoriosa do Estado nos últimos anos e por receber um incentivo em meus estudos.
- Como se sente ao ganhar o Troféu Romulo Maiorana 2011 da modalidade futsal?
Vencer o Troféu só veio coroar um ano especial pra mim, onde as coisas deram muito certo. É um orgulho poder ser escolhido, já que só os melhores atletas de cada modalidade participaram da premiação. Porém, este ano de 2011 deve honrar esse prêmio e fazer jus a ele, nunca me acomodar.
 - O que é fundamental para ser um jogador de futsal? 
Creio que força de vontade e dedicação, pois, com a evolução do jogo durante os anos, cada vez mais a modalidade fica mais dinâmica, então é necessário sempre estar bem focado e dedicado para poder se sobrepor dentro de quadra. 
- Como você consegue conciliar os seus estudos ou a profissão com os treinamentos e jogos do futsal?
   Pra mim, não se torna tão difícil, pelo fato dos treinos serem na própria faculdade. Eu saio da aula e já vou para quadra realizar as atividades. Porém, com a formação superior, ficará mais difícil já que os horários vão ficar mais apertados para treinar e jogar.
- Qual a próxima competição de que você vai participar?
Estou disputando o campeonato paraense(1º turno) e as próximas competições serão a Liga Norte e a Taça Brasil de Clubes ,pela categoria adulto, ambas fora do estado 
- Falta patrocínio para o futsal paraense? Você tem patrocínio ou recebe algum tipo de apoio de instituição ou entidade? O futsal do Pará é um dos melhores do Norte ou do Brasil como um todo? Quantos clubes paraenses disputam competições oficiais?
A falta de patrocínio é algo que não só o futsal sofre. O esporte amador não é alvo de investimentos das empresas, isso acaba dificultando o trabalho de muita gente boa, que muitas vezes larga o esporte por falta de patrocínio. Eu recebo o apoio da Esmac (Madre Celeste), dispondo da minha faculdade de educação, além de uma ajuda de custo. O futsal do Pará não só região Norte, mas no Brasil todo, é muito respeitado, haja vista que nos últimos cinco anos através da Esmac, o Pará acabou por subir no ranking da Confederação Brasileira de Fustal. Hoje, a Federação Paraense está entre as dez primeiras neste ranking. Tem uns 15 times disputando o campeonato paraense de futsal, e isso é muito bom para o esporte.
- Quais são seus planos como atleta de futsal e como profissional?
Vou seguir no ramo da Educação Física, mais para área escolar mesmo, tentando passar o que possuo de conhecimento, e mais tarde, entrar no ramo como técnico de futsal.

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11/06/2011

Amor como essência 
Por Eduardo Rocha
    * comentário sobre palestra do terapeuta Alberto Almeida em Belém do Pará
Nesses dias de juras de amor entre namorados, vale a pena refletir na colocação feita pelo médico homeopata e teraupeuta Alberto Almeida, um dos principais oradores espíritas no Pará e no Brasil: "O amor verdadeiro não desiste nunca", pronunciada durante explanação sobre o tema "Um jeito novo de amar para estes dias", no dia 6 de junho, à noite , no auditório do Centur, em promoção do Grupo Essência de Psicologia. Diante de uma plateia de cerca de 700 pessoas, em diferentes idades, Alberto Almeida discorreu sobre os possíveis significados do amor para nós, aprendizes da vida.
O orador considerou como exemplo do amor verdadeiro o amor das mães para com os filhos, um jeito sempre novo de amar os rebentos, estejam eles em quaisquer situações cotidianas. Como ressaltou Alberto, uma mãe nunca desiste de amar o filho usuário de drogas, um filho portador de doença mental, por mais que a família e a sociedade os rejeitem. Esse amor de mãe acaba servindo de referência não apenas para as mulheres com seus filhos e filhas, mas, também, para qualquer cidadão do mundo, inclusive, filhos e filhas. Em particular, os namorados. 
 Amar é muito diferente de gostar como ressalta o autor espírita Richard Simonetti. Ao comentar passagens bíblicas, ele diz que gostar é uma coisa e amar é outra. Gostar é assim: eu gosto da minha namorada porque ela gosta de mim, ou seja, é uma relação de troca de interesses. Amar é assim: quando eu amo alguém, amo incondicionalmente, amo a pessoa com suas virtudes e também (aí a maior virtude) e com seus defeitos, suas imperfeições como cidadão(ã) do mundo. Nos dias atuais, falar em amor verdadeiro parece algo fora de lugar. São mães abandonando filhos em paradas de ônibus ou em latões de lixo, são filhos sendo maltratados e até torturados e mortos pelos próprios pais, são filhos ou filhas assassinando os pais, crianças (crianças!) sendo alvo de pedófilos na internet e, também, vítimas de violência sexual dos próprios pais e padastros, são casais brigando de verdade, e não apenas discutindo, nas ruas, nos bares. Onde está o amor verdadeiro? Quem sabe, nos filmes românticos, no facebook, no youtube, no twitter, nos sites, nos e-mails, no skipe, na webcam, na televisão, nos programas de rádio, nas quase obsoletas juras e demonstrações de amor. Alguém precisa amar e ser amado, verdadeiramente? Onde está o amor verdadeiro?
Na explanação, Alberto Almeida deu algumas pistas: ele abordou, primeiramente, o amor egóico verificado em demasia na Grécia antiga, quando uma pessoas afirmava amar alguém nos moldes de Narciso, isto é, amava porque se via no outro, este sem existência própria. "Nesse caso, a pessoa não consegue ver, entender a existência do outro, porque busca somente se ver na relação, porque de acordo com a mitologia éramos inteiros, mas por decisão de Zeus agora procuramos a metade de nós, e aí entra a figura da cara metade, que acaba sendo uma metade cara, porque buscamos a nós próprios nesse caso, e não a felicidade do outro, também, na relação interpessoal". Interessante é constatar que esse jeito antigo de amar ainda é encontrado às pampas nos mundo real e virtual. Em seguida, Alberto abordou o amor a partir da cultura judaica, em que já se tem o olhar de um sobre o outro na intenção de, juntos, buscar a felicidade. Aí entra a figura do divino, do homem e da mulher criados à semelhança de Deus. "Existe a possibilidade de uma pessoa olhar com amorosidade uma outra, o outro deixa de ser um espelho dos meus interesses, passa a também ser sujeito na relação". 
Na sequência da explanação de Alberto Almeida e da própria história, surge o amor de que nos fala o Cristianismo. Nesse estágio da convivência entre os povos, entre os seres na Terra, namorados ou não, a contribuição da cultura grega e o legado da cultura judaica são aproveitados no Cristianismo que traz a mensagem do amor capaz de vencer os males que assolam a sociedade. "Jesus Cristo ensinou que o amor supera as adversidades, propondo o amor ao outro, até a um outro tão diferente de mim que chega a ser considerado como meu inimigo, mas, ao contrário do que se pensa, eu posso amá-lo, posso oferecer a outra face, no sentido de uma reação ativa de consciência, de convencimento de que tal atitude de beligerância pode nos prejudicar a todos". O inimigo, na maioria das vezes, para não dizer logo em todas as ocasiões, é um espelho do que eu tenho ou não tenho de virtudes e defeitos em meu interior, como ressaltou Alberto. 
Quando eu não consigo amar, mas somente gostar de alguém, é porque ainda não me conheço o suficiente, ainda não sei da vida o suficiente para não me incomodar profundamente com algum mal-entendido, xingamento, desencontro, descortesia, grosseria, agressividades, tão comuns nestes dias. Ainda não consigo transcender diante das situações adversas com a elegância de quem busca sempre domar seus instintos. Como sugere Alberto Almeida, vez por outra em suas explanações, o amor divino mostra que eu não posso ser feliz sem participar da felicidade do outro. Querer bem ao outro, isso é o amor verdadeiro, o amor que embala as mães, os filhos, os casais, o Dia dos Namorados em todos estes dias.

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03/06/2011

Verde Animação dos Miritis: Entrevista com Andrei Miralha
Por Eduardo Rocha

O brinquedo de miriti pode ser considerado um símbolo do que é possível se fazer na preservação dos recursos naturais na Amazônia e no mundo inteiro. Esse elemento tão vivo na cultura paraense surge a partir do uso da árvore miriti para confecção de pequenos, médios e até grandes bonecos por mãos ancestrais e novatas de artesãos no interior do Estado do Pará, precisamente no Município de Abaetetuba.
Retirado das matas, o miriti passa a fazer parte de um outro universo ou ecossistema: o dos bonecos coloridos que retratam justamente o universo/ecossistemas da Amazônia, com habitantes de cidades interioranas, canoas, botos, peixes em geral, árvores, casas, onças, tatus, cobras, tucanos, araras, borboletas, jacarés e, em particular, a fé religiosa traduzida no Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
A cada ano, os artesãos surpreendem o público no Pará e fora do Estado e também se surpreendem com novos itens, a ponto de o animador paraense Andrei Miralha Padilha Duarte, 46 anos, oito dos quais nessa profissão, entusiasmar-se tanto para colocar o brinquedo de miriti na linguagem audiovisual. Neste domingo, dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, Andrei lança o DVD "Miritis", reunindo dois filmes de animação ( "Admirimiriti" e "Nossa Senhora dos Miritis") e um documentário ("Miriti-Miri"). Será a partir das 10h30, no Cine Olympia, na avenida Presidente Vargas, centro de Belém, com entrada franca. Como se vê, o miriti continua a se ramificar, ratificando que o uso racional da matéria-prima pode render bons e coloridos frutos para quem vive na Terra. Confira, a seguir, um bate-papo com Andrei Miralha, o cara dos miritis animados:
-  Há quanto tempo você trabalha com animação?
Eu trabalho com animação há 8 anos, já participei de quatro filmes de animação: "A Onda-Festa na Pororoca" (Cássio Tavernard) como animador, e dirigi, produzi e animei as animações "Admirimiriti", "Muragens-Crônicas de um Muro" e "Nossa Senhora dos Miritis" e ainda dirigi o documentário "Miriti-Miri".
Como você pensou o DVD “Miritis”, com duas animações (“Admirimiriti” e “Nossa Senhora dos Miritis”) e um documentário (“Miriti-Miri”)? Fale um pouco sobre cada um desses trabalhos, desde a concepção, montagem, roteiro, arte final e edição, por exemplo. Quem o ajudou nesse processo todo? Quanto tempo para aprontar cada um deles? Quais as maiores dificuldades para conseguir esse objetivo?
Na verdade, a ideia original era produzir um DVD com uma reedição do "Admirimiriti" e um documentário sobre os brinquedos de miriti, mas como já estava produzindo o "Nossa Senhora dos Miritis", através de um edital do Ministério da Cultura, aproveitamos pra incluir no DVD que conseguimos aprovar no edital de patrocínios do Banco da Amazônia, através da Lei de incentivo à Cultura do Governo Federal. Esses filmes foram resultados de processos bem diferentes, e cada um tem suas peculiaridades na produção.
Animações são muito planejadas, têm story board que amarram bem a história, muito diferente de um documentário, que apesar de termos criado um roteiro inicial, feito pelo Adriano Barroso, a montagem final é bem diferente do que imaginamos, por que existem elementos novos que se somam no momento da produção de campo, que foi feita pela Luciana Martins, até o momento das filmagens realizadas pelo Renato Chalu. 
Todos esses elementos novos vão compor um novo roteiro, mas com havíamos criado uma narração em off, o texto foi mantido e para a narração escolhi o ator André Mardock, que traz uma narração bem descontraída no filme. A montagem foi feita pelo editor Robson Fonseca, que escolhi pelo seu trabalho de edição ser bem dinâmico e criativo, o que imprimiu ao documentário uma narrativa bem leve e divertida. O documentário conta ainda com ilustrações animadas, produzidas pelo Otoniel Oliveira e música de André Moura, que é o compositor das trilhas sonoras dos três filmes. 
Por que você escolheu esse tema, o miriti, para esses trabalhos? Você sempre foi fascinado pelo artesanato em miriti? Como foi sua pesquisa de campo para elaborar e concretizar as animações?
A escolha dessa temática é devido a riqueza de imagens que existe através da representação desse universo amazônico que os brinquedos de miriti permitem: são passarinhos, cobras, tatus, ratinhos, araras, jacarés, rodas gigantes e tantos outros. É uma variedade incrível de cores e personagens que justificam a escolha, além de minha grande admiração por esta arte, oriunda do município de Abaetetuba. Durante a pesquisa de campo que fizemos para o curta "Admirmiriti", em 2005, quando visitamos os artesãos em seus locais de trabalho é que veio a ideia do "Nossa Senhora dos Miritis". Aqueles ambientes repletos de brinquedos, de buchas estocadas, de brinquedos por fazer, inspiraram a criação do curta que faria anos mais tarde. 
O tempo de produção do "Admirimiti" durou nove meses e o do "Nossa Senhora dos Miritis", quase dois anos, devido a complexidade de algumas cenas e de termos personagens humanos que falam no filme. Foi o processo mais cansativo que já passei. As maiores dificuldades estão na própria produção, de não ter pessoas que trabalhem só com animação, assim como eu, que muitas vezes se desdobram num terceiro período de trabalho para poder realizar esse tipo de projeto, pois depois de um dia de trabalho, ter de chegar em casa e ainda trabalhar, é bastante cansativo, mas vale a pena porque é um projeto nosso, e é um trabalho que gostamos de fazer. 
A outra dificuldade está em não contarmos com tantas pessoas qualificadas para o serviço quanto gostaríamos e acaba que sobra trabalho triplo pra cada um. Pra se ter uma ideia, eu  dirigi, animei, modelei, texturizei, montei as câmeras em cena, fiz a luz e gerenciei o render, da mesma forma que o Nonato Moreira, que faz criação dos controles de animação e cuida de toda a parte técnica para a realização do curta, se desdobra entre solucionar problemas técnicos de animação e finalização, e ainda tivemos que fazer a composição de cada sequencia que é gerada em diferentes camadas, separadas entre personagens, cenário e sombras. É um trabalho puxado, em que erros na geração de uma cena, resulta em mais alguns dias para a correção. Mas o que importa é fazer com o trabalho valha a pena, que a pessoa que assiste viaje na história, que embarque na fantasia.
Você pretende continuar nessa temática do miriti entrelaçada com a realidade e imaginário amazônicos? Quais seus planos para este ano e para os próximos?
Eu pretendo fazer outros trabalhos utilizando a temática do miriti, mas no momento estou envolvido em num novo projeto chamado "Quem vai Levar Mariazinha pra Passear?" que mistura atores com animações de recortes. Atualmente meu plano mais pretencioso é viver exclusivamente de animação, de trabalhar só com isso. No mais, quero viabilizar outros projetos de animação.
O que motiva você a ser um animador? De quem você aprecia o trabalho nessa linha de animação, dentro e fora do Estado? 
Eu gosto do encantamento que uma animação produz, das possibilidades estéticas e até mesmo poéticas que a animação pode oferecer, gosto de brincar com as imagens, de contar uma história e poder criar um universo lúdico e bonito que animação permite, um mundo onde tudo é possível. Gosto de muitas coisas em animação, que vão desde as animações da Pixar até animações experimentais e inovadoras como MUTO do artista Blu, que faz animações diretamente na parede, e por coincidência eu quase fiz o mesmo no "Muragens" que foi produzido mais ou menos na mesma época, mas não tive a coragem e a disposição de fazer algo daquele tipo.
Como se sente tendo um trabalho na mostra do Anima Mundi? Além de estimulante, essa conquista já apontou algum caminho para o seu trabalho?
Anima Mundi é um festival que já está em sua 19ª edição, e com certeza me inspirou muito a produzir animação. Lembro que em 2003, se não me engano, veio aqui pra Belém, uma mostra itinerante do festival. Na época, a internet não era como hoje, nem existia you tube, e assistir a animações daquele tipo era raro, eram animações diferentes das que cresci assistindo, que eram mais comerciais, fiquei fascinado com aquilo. Sempre que faço uma animação nova, penso no Anima Mundi e se fiquei feliz em participar com o "Muragens" em 2009, estou mais feliz ainda de participar novamente com o "Nossa Senhora dos Miritis", e estar pela segunda vez numa mostra competitiva do festival. Bem, sobre os caminhos? A meta é continuar produzindo, sempre buscando me aperfeiçoar e viajar nesses fabulosos universos que as animações nos permitem.

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01/06/2011

Chico: Prisma Literário
Por Eduardo Rocha

Ouvir Chico, ler Chico, pensar Chico. Se você não fizer uma dessas três sugestões pelo menos uma vez por semestre, pode ter certeza de que não vai estar apenas distante de uma trilha para conhecer mais o Brasil, mas, também, vai estar se negando o acesso a uma obra das mais completas e, ainda, capaz de propiciar o diálogo com a arte de outros autores literários.
A riqueza de imagens construídas por esse compositor carioca, torcedor do Fluminense, que teve uma fase com bigode e outra (atual) sem bigode, mas sempre um talento inquestionável, permanece tão viva e nunca esquecida em "um canto qualquer", como na música "O Caderno". Afinal, os olhos de Chico Buarque de Hollanda, que tanto encantam o público feminino, são vivazes como ponto a ser o ponto de partida da criação desse artista, o que envolve, também, os dedos ao violão e ao computador e os ouvidos para ouvir  a si próprio. 
Bem, ao contrário do elogio conhecido, a obra de Chico não dispensa comentários. Ela deve, sim, ser comentada para que outros também possam admirar o trabalho do autor de "Construção", "O que será", "Tatuagem", "Brejo da Cruz", "A Ópera do Malandro", "Roda Viva", "Mulheres de Atenas" e tantas outras. Um dos comentários sobre a obra de Chico no país são as palestras que a escritora Stella Pessôa, uma engenheira civil e analista de sistema, tem feito em Belém, como fruto de dez anos de pesquisa sobre o assunto. As últimas foram em maio, no Centro de Cultura e Formação Cristã (CCFC), da Igreja Católica, na BR-316, Km-6, no "Seminário Paralelos entre as canções de Chico Buarque e os clássicos da literatura”, usando vídeos e comentários. Stella prepara o lançamento de um livro sobre o tema, como ela mesma informa na entrevista, a seguir:
O que você considera como mais salutar na obra literária e musical do cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda? Por que? 
Admiro sobretudo a diversidade de temas abordados: repressão, história, amor, traição, ilusões, perdas, encontros, desencontros, a natureza humana, artes, memória, tempo, decadência... Na pesquisa que desenvolvo como hobby há mais de 10 anos, o foco é encontrar relações entre as letras da MPB (Música Popular Brasileira) de Chico e obras da literatura: nos clássicos universais e também nos livros de repercussão nacional. No meu entendimento, a leitura das letras do Chico aguçam o interesse das pessoas por algumas obras literárias. Então, vejo possibilidades de uso da MPB do Chico para incentivar o interesse pela literatura, de uma forma agradável e lúdica. 
O trabalho do Chico apresenta características muito próprias, construídas magistralmente a partir de muita leitura e observação do que acontece no mundo das artes, em particular na literatura nacional e internacional, e na realidade do Brasil e do mundo. Isso pode ser comprovado nos discos? 
Entendo que o Chico Buarque conseguiu combinar a sua formação musical com bagagem intelectual. Na música, Chico fez parcerias com expoentes como Tom Jobim, Edu Lobo, Francis Hime e Luis Cláudio Ramos, por exemplo. Quanto ao seu desenvolvimento intelectual, entendo que o fato marcante é Chico ser filho de Sérgio Buarque de Hollanda, grande intérprete do Brasil com o livro “Raízes do Brasil” e crítico literário renomado. Essa convivência ou esse ambiente cultural (desde a infância) foi essencial e repercute na criação do Chico: discos, livros e peças de teatro. 
Qual é a relação intrínseca da obra de Chico Buarque com o trabalho de grandes nomes da literatura? Quais são os autores mais observados na obra musical de Chico Buarque? 
Nas apresentações que faço a respeito das letras das canções de Chico, eu costumo fazer comparações com alguns aspectos das obras de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, José de Alencar, Gonçalves Dias, Charles Baudelaire, Platão, Montaigne, Fernando Pessoa, Calderón de la Barca, Dante Alighieri e outros autores. 
Você pode citar algumas canções do Chico que você usa para as comparações? 
Uso “Sonhos sonhos são” quando comento Calderón, “As vitrines” quando comento Baudelaire, “Até o fim” quando comento Drummond, “Iracema voou” quando comento Alencar... 
A obra desse artista brasileiro, considerado por muita gente como o maior compositor que o Brasil já teve, mantém-se atual, é interessante para a geração atual conferir, degustar? 
Entendo que é uma questão de divulgação, seja da mídia, seja da educação formal. A obra de Chico já aparece amplamente para os jovens em questões dos vestibulares em todo o Brasil e é tema de trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado. 
Você acha que a obra do Chico sofreu uma queda de conteúdos nos últimos anos, a partir do final da ditadura militar, como pensam alguns críticos dele? E não se trata só da obra do Chico Buarques, mas de outros artistas, também, com Gil, Djavan e Milton Nascimento... sempre segundo alguns ouvintes desses compositores?
Com relação ao Chico, não vejo queda de conteúdo ou qualidade. Penso exatamente ao contrário disso. Na minha leitura, a obra do Chico atinge níveis progressivos de qualidade, tanto a literatura como a MPB. Sabemos que Chico é perfeccionista, rigor que aumenta com o passar do tempo. Para mim, o melhor disco é “Carioca”, justamente o último lançado. Em períodos anteriores, é verdade que a produção era mais intensa, mas hoje a maturidade do artista é fator importante na definição da qualidade. 
Você pensa em lançar um livro sobre esses seus estudos acerca da obra do cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda? O que você nos diz sobre patrocinadores para a publicação de livros? 
O livro já tem nome: “Chico Buarque e os meus botões”. Posso dizer que os ensaios estão prontos. Mas a publicação no Brasil ainda é difícil porque tem altos custos. Creio, no entanto, que o livro estará impresso no próximo ano. 
Patrocínio não é fácil. Ou talvez eu não tenha muito jeito para buscar patrocínio. É preciso conhecer os meandros. Já tive dois livros de contos publicados: um deles – “Ficção em vez de confissões” – não teve patrocínio, mas o segundo – “Mulher com o seu amante” – foi beneficiado pela premiação da Academia Paraense de Letras que possibilitou o patrocínio pelo Governo Estado do Pará. Por enquanto, não visualizo patrocínio para “Chico Buarque e os meus botões”. 
Enquanto isso, vou fazendo minhas apresentações em seminários e uso a internet: escrevi artigos que estão no site oficial do Chico e no do jornal eletrônico “Observatório da Imprensa”. Já apresentei o trabalho na Secretaria Municipal de Educação, na Unama, no Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém e no festival da canção em São Paulo. 

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01/06/2011

1º de junho: Dia da Imprensa
Por Eduardo Rocha. 

Para a imprensa não tem dia certo, não. A imprensa é todo dia, toda hora, todo fato. O trabalho jornalístico de informar, analisar e trazer para a esfera pública temas adormecidos, ou então ainda não inéditos aos cidadãos em qualquer lugar no mundo, tem como base somente duas palavras e um sinal gráfico: por que?
Esse tripé questionador, sugestivo e, por muitas vezes, incômodo, está, aliás, na essência de toda a história humana ou até mais que humana, porque enfoca a busca por respostas a indagações sucessivas nas pegadas da Humanidade, mesmo quando havia somente sinais gráficos nas paredes das cavernas, das mensagens telegráficas, dos jornais e revistas, do rádio, da fotografia, do cinema, da televisão, do computador ou, no momento atual, quando esses meios de comunicação dialogam, de alguma forma, entre si nos mundos virtual e real.
A imprensa é agora. A notícia não tem sala de espera, o instantâneo, o que é importante para pobres e ricos, famosos ou anônimos, não pode ficar para depois. Principalmente, quando se trata de defender a cidadania contra qualquer modo de opressão, de cinismo, de corrupção, de destinação pérfida de recursos públicos, a priori destinados ao atendimento dos mais necessitados por um Estado laico. A imprensa deve perguntar a si mesma: por que? Por que se tornou imprescindível à sociedade? Mas também por que ainda não consegue evoluir mais, em todos os sentidos, em especial diante das demandas das comunidades nos bairros, nos guetos, nas favelas, nos salões nobres, nas redações?
As perguntas básicas do jornalismo do dia a dia são: quem? o que?, onde? como? quando? por que? Podem ser sintetizadas, isto é, começam e terminam sempre com a pergunta: por que? Em qualquer situação, os cidadãos em geral, incluindo os jornalistas, devem querer saber: por que isso ou aquilo acontece? No labor da imprensa nada é mais filosófico, metafísico, ardente e fascinante do que se buscar o por quê das coisas, dos atos, de sermos assim ou se ainda poderemos mudar nossos pontos de vista, nossa rotina. Daí que o 1º de junho é o Dia da Imprensa, o que pode não significar muito, porque a todo instante temos informações, temos notícias, temos a imprensa atuando, os jornalistas em campo e até esquecemos de que a imprensa existe, como a energia elétrica que somente se percebe quando ela está ausente. Mas o Dia da Imprensa, uma data, uma efeméride, pode nos lembrar da pergunta que não quer e nem deve calar: por que?

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01/06/2011
Da Página

Observatório da Imprensa:
Por Rogério Faria Tavares:
1º de junho, Dia da Imprensa(30/05)

Por força da lei nº 9.831, de 13 de setembro de 1999, o Dia da Imprensa é comemorado, no Brasil, no dia 1º de junho, data em que começou a circular o jornal Correio Braziliense, fundado por Hipólito José da Costa, em 1808. Aproveito a oportunidade para refletir sobre algumas das funções que a imprensa deve exercer na sociedade brasileira.
1.Defesa do Estado Democrático de Direito – A imprensa precisa empenhar-se de modo incansável em prol da democracia constitucional, combatendo com intensidade os regimes de exceção e o cerceamento das liberdades. O apreço pelo governo das leis, mais que dos homens, é a prova do engajamento da imprensa no processo permanente de aprimoramento institucional do país. A imprensa deve conduzir os debates apropriados em torno dos avanços e das mudanças que se fizerem necessárias à evolução do regime político brasileiro. Também deve lutar pela plena aplicação da Constituição Federal, sobretudo no que se refere ao capítulo da Comunicação Social.
2.Defesa da função social e política da atuação do jornalista– O jornalista não é apenas um técnico da produção e disseminação de textos noticiosos. É um intelectual e um pensador. Presença ativa na comunidade a que pertence, é testemunha da história de seu povo e de seu tempo. Capacitado a refletir sobre a realidade, o jornalista desempenha, ainda, o papel de interpretá-la e analisá-la. É um dos principais articuladores e mediadores dos discursos que os diferentes grupos sociais enunciam sobre os acontecimentos da atualidade. Esta é a visão sobre o profissional da imprensa que deve ser popularizada. Ao jornalista deve ser garantido o prestígio social e institucional necessário ao bom desempenho de seu ofício e oferecidas as melhores condições de trabalho e remuneração.
3. Defesa da cultura e dos valores nacionais – A imprensa deve incentivar a ampla e massiva difusão das manifestações da identidade nacional. As expressões mais genuínas do povo brasileiro, seja no campo das artes, seja no campo dos esportes (para citar apenas duas possibilidades), devem merecer o olhar atento da imprensa. Um povo afirma o seu modo de ser, o seu poder e a sua projeção no mundo por meio da sua cultura e de seus valores.
4.Defesa da popularização das tecnologias da comunicação –Impulsionada pelo fantástico progresso tecnológico observado nos últimos anos, a comunicação social ampliou fronteiras e alargou limites. Não se realiza apenas por meio dos canais tradicionais. Os benefícios gerados por essa revolução devem ser apropriados por todos. A imprensa, de modo vigoroso, deve apoiar a popularização de todas as tecnologias da comunicação e o intenso compartilhamento dos seus frutos.
5.Pluralidade e tolerância –Finalmente, a imprensa precisa oferecer o espaço para o cultivo da diversidade, em todas as suas acepções. Ela deve sediar campo generoso para a saudável convivência das manifestações de pessoas de todas as etnias, credos, opiniões e ideologias. O debate de idéias deve ser estimulado. As divergências e as discordâncias devem ser encaradas como sinal de riqueza intelectual.
Os aspectos ora destacados são, naturalmente, apenas um ponto de partida possível para uma reflexão mais abrangente sobre o papel da imprensa no Brasil de hoje. Espero ter contribuído para alimentar a discussão.

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28/05/2011

Lógica do consumo emperra o futuro
Por Eduardo Rocha

"A pergunta posta hoje à sociedade é: se o modelo desenvolvimento que temos será capaz de manter a sustentabilidade do planeta? A resposta não é fácil, porque toda a produção mundial é baseada no consumo de bens". A colocação foi feita terça-feira (24) à noite, em Belém, pelo ex-presidente da Bolívia, Carlos Mesa, ao explanar sobre o tema "Segurança Internacional - Paradigmas do Desenvolvimento e Mudança Climática" na programação do 4º Fórum de Relações Internacionais da Universidade da Amazônia (Unama), no Campus BR-316 dessa instituição de ensino.
Carlos Mesa entende como uma alternativa válida para o impasse que permeia as relações dos países desenvolvidos e os chamados emergentes, entre os quais o Brasil, um novo modelo de desenvolvimento com redução da geração de empregos baseados no consumo, observando que o trabalho poderia ser destinado a atender às necessidades dos cidadãos nos países, e não a um consumo exagerado, que está intrinsicamente relacionado com o esgotamento de recursos naturais e modificações estruturais no planeta. "Eu posso ser feliz e preservar o planeta", reforçou o ex-presidente boliviano durante explanação para cerca de 150 estudantes universitários, na presença dos professores  Roberto Alcântara, diretor do Centro de Estudos Sociais Aplicados, representando o reitor da Unama, Antônio Vaz, e Félix Prieto, responsável pelo curso de Relações Internacionais da Unama.
Carlos Mesa destacou, ao se dirigir aos alunos da Unama, que a manutenção do modelo atual de felicidade preconizado pelos países ricos e em desenvolvimento, também, implicaria no comprometimento dos recursos naturais da Terra em 14 vezes. "Os países ricos cobram medidas para redução de gases na atmosfera dos países emergentes, mas a reduão do aquecimento global depende de todos os países, é uma cadeia de enfrentamento, não é só um desejo, mas, sim, um processo de respostas comuns, não se pode ter mais rotas de enfrentamento diferenciadas". Carlos Mesa observou que 90% das pessoas no mundo defendem a tese da felicidade material, ou seja, dispor de produtos dentro de uma lógica de desenvolvimento baseado no consumo de bens, em que "êxito e felicidade são sinônimos de dinheiro e poder desfrutar de coisas tangíveis". 
"Nesse modelo de desenvolvimento, os cidadãos são convencidos de que precisam comprar, então, a reversão desse modelo para a preservação dos recursos naturais e em prol da estrutura do Planeta não é apenas uma questão moral, mas, sim, prática". Perguntado sobre o embate entre ambientalistas e ruralistas para aprovação do Código Florestal no Congresso Nacional, em que posições extremadas são colocadas na mesa, o ex-presidente boliviano afirmou que os ecoextremistas são necessários, porque chamam a atenção da sociedade em geral para questões urgentes e para dar respostas enérgicas aos problemas ambientais. "O importante é fazer com que as leis sejam cumpridas". Carlos Mesa finalizou afirmando que a sociedade mundial precisa rever, com urgência, seus paradigmas de desenvolvimento.


imagem: cristino martins

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27/05/2011

No tempo submerso no Café Central
Por Eduardo Rocha, jornalista

O escritor Paes Loureiro lança primeiro romance e sugere imagens em tempos subjetivos

Qual num jogo de xadrez, o tempo nos tem sempre um convite para o próximo movimento, nos próximos fatos, e, depois de concretizados, o tempo os guarda na memória de nós mesmos, guarda-nos enquanto permanece submerso, por exemplo, nos espelhos de um café de uma Belém em sua história. Assim se mostra a poesia, assim se mostra a prosa no romance “Café Central – o tempo submerso nos espelhos” que o poeta e escritor João de Jesus Paes Loureiro lançou ontem(quinta-feira), dia 26, às 19 horas, no Espaço São José Liberto, no entorno da praça Amazonas.
É o primeiro trabalho do gênero de autoria desse artífice das palavras, e sai pela Editora Escrituras. Narrado na primeira pessoa, o livro transita na fronteira entre o real e o imaginário, contando as conquistas e desventuras de um personagem contemporâneo da Ditadura Militar no Brasil que percorre situações e sentimentos a partir do refúgio poético e físico do Café Central, estabelecimento comercial de outros tempos no centro de Belém, onde ele se enxerga e acontecimentos podem ser (re)vistos nas imagens refletidas nos espelhos do Café. Como adianta o autor, o romance levou tempo para ganhar vida e, agora, poder ser desfrutado pelos leitores.
“Embora a poesia seja minha forma essencial de criação, a prosa sempre fez parte de minha atividade como escritor. Durante anos, escrevi crônicas para O Liberal, além de crítica de cinema. Tenho uma novela publicada apenas por uma editora da França, em uma ótima tradução, sem edição do original no Brasil, pois o contrato assinado foi com a Acte Sud, editora francesa. Mas a poesia sempre está pousada no meu ombro esquerdo enquanto escrevo prosa, observando e orientando!”. Paes Loureiro ressalta que escrever é sempre um desafio para o autor, e no caso de “Café Central” não foi diferente. “Na poesia é o labirinto perfurante da síntese para dentro da alma da palavra. A prosa, o desdobramento da linha labiríntica da criação (da poiesis) para além da palavra que se torna um rio corrente. A ideia do romance surgiu há muitos anos, comecei a trabalhar e, quando tinha 60 ou 70% do texto realizado, perdi os originais em uma viagem. Quando rebrotou veio totalmente diferente daquela do primeiro texto. Levei, mais ou menos, cinco anos o escrevendo. Busquei uma estrutura formal que joga muito com tempo diversos, o que é sempre um desafio”.
Sobre o título do livro, ou seja, o cartão de apresentação da obra, Paes Loureiro comenta: “O título já é um signo integrado no romance. Um fragmento inicial. Assim como o livro de poemas anterior  ‘Água da Fonte’. Gosto de trabalhar os títulos como uma chave do clavenário que vai abrir o livro. O Café Central existiu em Belém e, só há pouco tempo, foi demolido internamente para que o espaço passasse a pertencer a uma loja de departamentos. Na Belém da época, foi o lugar de papos intelectuais, conchavos políticos, novidades jornalísticas. Delírios estudantis por uma sociedade mais justa e sem desigualdades. A turma da União Acadêmica Paraense, a UAP. O romance vive na atmosfera do que penso ser a cultura amazônica: um entrelace no cotidiano entre o real e o imaginário. Mas, o imaginário como fato social, que interfere na realidade das pessoas”.
“A narrativa começa no Café Central, após a invasão da UAP pela Polícia Militar e início da ditadura militar no Pará. Depois, o personagem, tentando escapar das perseguições da ditadura, do DOPS, refugia-se numa pensão elegante na zona do meretrício, próximo à praça da República. Escapa pela região da ilhas de Abaetetuba, tentando mergulhar na vida mítica. Depois vêm as prisões no Rio de Janeiro e, finalmente, passados muitos anos, novamente no Café Central. O Café Central, portanto, é uma situação alegórica e emblemática nesse romance”.
No romance , o protagonista conta sua passagem em tempos idos e sobre como esses tempos estão se refletem nele próprio, indefinidamente, acompanhando-o. Nesse processo, um parceiro muito especial do protagonista ganha vida na trama, como explica Paes Loureiro. “Quem verdadeiramente completa, sacraliza e constrói um poema, um romance, é o leitor. O que o autor deseja é poder despertar no leitor a obra ideal que ele viveu para escrever. No "Café Central - O tempo submerso nos espelhos" a ficção canibaliza o real, banqueteia-se do real, não como documento, mas, como ancoragem histórica, social e humana. Ainda que pareça real, ainda que alguma coisa até seja real. Ali, no romance, tudo é transfigurado pela ficção”
Autor dos mais significativos da literatura regional e nacional, Paes Loureiro revela sentir-se “com a chama acesa da poesia e da vida dentro de mim, uma imensa vontade de continuar vivendo a intensidade do amor de Violeta (Violeta Loureiro, mulher dele), dos filhos, família, amigos, conviver com alunas e alunos e dialogando com os nossos artistas, de quem me contamino com a felicidade sustentada pela criação artística deles”, como na história de “Café Central”, versando sobre a impossibilidade do homem fugir às suas circunstâncias, ao seu tempo, ao momento da história, inclusive, quando encara o tempo no jogo de xadrez da existência e escreve seu primeiro romance, para manter-se livre.

junho 26, 2011

As Fronteiras das Palavras



Em minha opinião, os Dicionários quebram as fronteiras de signos. Palavras diversas agrupadas, com o seu significado e significante. Gosto de Dicionários, principalmente os mais antigos, mais amplos, mais aglutinadores, mais democráticos com o conhecimento. Poucas são as pessoas que podem adquirir um bom Dicionário. Geralmente as escolas utilizam os mais simples. E com a internet, muito se perdeu na originalidade dos Dicionários.
Primeiro, que alguns não refletem as informações corretas e, segundo, você busca o que te interessa, não abrindo o leque para novos conhecimentos. O que dizer das Enciclopédias? Às vezes, penso que o Dicionário caminha nesse sentido, porque está cada vez mais especializado.

O escritor peruano Mário Vargas Llosa no seu Dicionário Amoroso da América Latina(Ediouro,2006), faz um passeio de A a W, com uma mistura de autobiografia, autores, política, economia, entre outros pontos sobre o nosso mundo, deslizando no passado e no presente, e destacando que as 'fronteiras nacionais não refletem as verdadeiras diferenças que existem na América Latina'.

A jornalista portuguesa Isabel Coutinho, em entrevista ao cantor e compositor Chico Buarque para a sua coluna no jornal português Público, inicia sua narrativa dizendo que em cima do piano, na sala do apartamento do artista, estava um Dicionário antigo, como relíquia.

Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso(Francisco Alves,1991), ao recortar o sujeito apaixonado de inúmeras peças literárias, transforma a obra em um verdadeiro Dicionário. Diz ele, que 'diz-se que só as palavras têm emprego, não as frases; mas no fundo de cada figura jaz uma frase, quase sempre desconhecida'.

Afinal, o que são os Dicionários, se não fragmentos dos signos? Pergunto e, confesso que este é meu olhar. Edgar Morin(Meus Demônios,Bertrand Brasil,1997) para formar sua cultura, procurou o conhecimento 'enciclopedente', e não enciclopédico, para colocar em ciclos os conhecimentos dispersos.

Vários escritores já começaram suas obras pinçando palavras com significados, através dos Dicionários. Faço o mesmo, na série que abro sobre a 'História das Palavras' incentivada, também, por uma relíquia que possuo, o Dicionário da Língua Portuguesa(1988), elaborado pelo professor Antenor Nascentes, via Editora Bloch, já extinta. Um Dicionário que conta sua própria história de existência.

Esta série tem algo mais que a ousadia de apenas ser um relato.


Imagens: Google
Obs. Confira este texto:
LINGUAGEM MÉDICA 
 
DICIONÁRIOS E TERMOS MÉDICOS
        Conta-se  a anedota de um homem simples do povo, que após ouvir falar a Rui Barbosa, disse-lhe todo orgulhoso: "Eu tenho um livro lá em casa que tem tudo que o Sr. falou", ao que Rui teria indagado, surpreso: - "E que livro é esse?" - "Chama-se DICIONÁRIO", replicou o feliz possuidor de tamanho tesouro. 

        Este conceito de onisciência e polivalência do dicionário está de tal modo arraigado entre nós que, mesmo entre as pessoas de instrução superior, é freqüente ouvirem-se frases como estas: "Está no dicionário", "eu vi no dicionário", como se o conteúdo de um dicionário fosse o próprio texto de um livro sagrado, infalível, definitivo. 

        Infelizmente a verdade é bem outra. Os dicionários, por melhores que sejam, contêm falhas, omissões, erros e opiniões divergentes entre si. Todo trabalho humano é necessariamente imperfeito e os dicionários com maior razão ainda, em virtude de sua natureza e complexidade. 

        As dificuldades na organização de um dicionário são inúmeras: de ordem ortográfica, prosódica, etimológica, semântica, sem falar nos percalços da editoração. 

        Vamos considerar apenas dois aspectos: a semântica e o corpus lexical, ou seja, o número de palavras averbadas. 

        A língua não é estática, "move-se ao longo do tempo numa corrente que ela própria constrói" (Sapir). O dicionário nada mais representa que o registro das palavras de uma língua em um dado momento da sua história. Muitas palavras nascem, envelhecem e morrem como células integrantes de um organismo vivo. Outras sobrevivem, porém sofrem mudanças de significado ou adquirem com o tempo novas acepções.

        Tais mudanças são lentas, mas podem ser facilmente percebidas ao folhearmos um dicionário de um ou dois séculos passados, quando deparamos com quantas palavras que já não se usam e que lá estão, mumificadas, ao lado de outras que ganharam significados novos. 

        Os lexicógrafos nada mais fazem do que registrar os vocábulos em uso, que eles procuram captar em suas várias acepções nas fontes disponíveis ao seu alcance. Alguns conseguem uma coleta mais ampla e enriquecem o seu trabalho com citações de textos e autores por eles consultados. A par disso, registram a categoria gramatical da palavra, a sua pronúncia e a sua etimologia. Os dicionários mais bem elaborados assinalam ainda a data em que a palavra foi introduzida na linguagem escrita. 

        A dificuldade maior na organização de um dicionário, entretanto, reside no que Houaiss chamou de "explosão vocabular", que fez com que o corpus lexical da língua portuguesa passasse de cerca de 20.000 a 30.000 palavras no início do século XIX para aproximadamente 350.000 a 400.000 palavras atuais. 

        Essa explosão vocabular se deve, sobretudo, ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Os novos termos criados são de uso internacional, sofrendo adaptações morfológicas em cada idioma em particular.[1] 

        Os melhores dicionários existentes em língua portuguesa resultaram do esforço de alguns abnegados lexicógrafos, que dedicaram parte de sua existência a um trabalho árduo e penoso, nem sempre compensador, para nos legarem o que de melhor existe em matéria de lexicografia. 

        No século XVIII o Vocabulário Português e Latino, de Rafael Bluteau, publicado em Lisboa entre 1712 e 1728, representou um marco na história da língua portuguesa. 

        No início do século XIX veio a lume o dicionário de Antônio de Moraes Silva, cuja segunda edição, de 1813, é considerada obra clássica de lexicografia portuguesa. Seguiram-se, entre outros, os dicionários de Francisco Solano Constâncio (1836), Eduardo de Faria (1849), Frei Domingos Vieira (1871), Correa de Lacerda (1874), Caldas Aulete-Santos Valente (1881), Cândido de Figueiredo (1899), cada qual apregoando sua superioridade sobre os seus antecessores, todos com falhas, omissões e incorreções. À exceção do dicionário de Constâncio, publicado em Paris, os demais foram impressos em Lisboa. 

        O primeiro dicionário da língua portuguesa, escrito e publicado no Brasil, data de 1832, e se deve ao goiano Luiz Maria da Silva Pinto, que o compôs e imprimiu na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. Intitula-se Dicionário - Língua brasileira.[2] Trata-se de obra rara e de valor histórico, infelizmente pouco conhecida. 

        Os dicionários de Moraes Silva e Caldas Aulete tiveram edições posteriores ampliadas, enriquecidas, atualizadas. 

        No século XX surgiram no Brasil obras notáveis no campo da lexicografia, como as de Laudelino Freire-J. L. de Campos, Antenor Nascentes, Silva Bastos, Silveira Bueno, Prado e Silva, Aurélio Ferreira, Antônio Houaiss. Todas, entretanto, deficientes no tocante à terminologia cientifica. 

        Essa deficiência é muitas vezes agravada pelo propósito do autor de não sobrecarregar o léxico "com uma verdadeira praga de coleópteros e animais daninhos", para usar as palavras do grande filólogo Pe. Augusto Magne, cujo malogrado Dicionário da Língua Portuguesa interrompeu-se, infelizmente, na letra "A ", por morte do autor. 

        O Dicionário da Língua Nacional, previsto pela Lei n° 93, de 21/12/1937, cuja publicação ficara a cargo do Instituto Nacional do Livro, jamais passou de um ambicioso projeto. 

        Academia Brasileira de Letras, em 1940, designou o Prof. Antenor Nascentes para elaborar o que se propôs chamar de projeto de um Dicionário da Língua Portuguesa. O Prof. Nascentes concluiu o seu trabalho em 1943, porém o mesmo só foi publicado de 1961 a 1967, em 4 volumes. Trata-se de obra valiosa, porém pouco difundida. 

        Em cumprimento à Lei 5.765, de 18/12/1971, a Academia Brasileira de Letras publicou, em 1981, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, organizado por uma Comissão de Acadêmicos, sob a coordenação do eminente lingüista Prof. Antônio Houaiss. A 3a. edição, atualizada, do referido Vocabulário,foi publicada em 1999. 

        Contamos atualmente com três modernos dicionários à nossa disposição: o Michaelis, editado pela Companhia Melhoramentos (1998), a 3a. edição do dicionário de Aurélio Ferreira, que se autodenominou Aurélio Século XXI (1999) e o Dicionário Houaiss (2001), sem dúvida o mais completo dos três, sob todos os aspectos, especialmente quanto à etimologia e à datação histórica das palavras. 

        Em Portugal, também em 2001, foi lançado o dicionário oficial da Academia das Ciências de Lisboa, em dois volumes, intitulado Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. 

        Cada área do conhecimento humano desenvolveu sua própria linguagem, com terminologia pouco acessível aos não iniciados. Este fato fez com que surgissem os dicionários especializados, inteiramente dedicados a áreas específicas do saber. Contam-se às centenas tais dicionários. 

        No particular da medicina, desde cedo tornou-se evidente a sua necessidade. 

        O mais antigo dicionário impresso de termos médicos de que se tem noticia é de autoria de Simone Cordo, que viveu de 1270 a 1303. Foi editado pela primeira vez em Ferrara, em 1471.[3] 

        Em 1564 foi publicado em Genebra o Diccionarium Medicum, de autoria de Henrique Estiennes. Trata-se de uma coletânea de termos médicos greco-latinos extraídos de autores clássicos, que muito influenciou na fixação da terminologia anatômica.[4] 

        Em 1598 foi publicado em Veneza o Lexicum medicum graeco-latinum, de autoria de Bartolomeu Castelli, obra que se tornou clássica pelo acervo lexical que contém.[4]] 

        Em 1679 surgiu a primeira edição do Lexicum Medicum Graeco-latinum Germanicum, de Stephen Blancard, médico e farmacêutico holandês. Trata-se de um pequeno dicionário que teve boa aceitação, alcançando a quinta edição em 1718. 

        No século XVIII foi publicado na Inglaterra o New Medical Dictionary, de John Quincy e, na Alemanha, o Medizinisch-chirurgisch-terminologisches Wörterbuch, de Knackstedt. 

        A partir do século XIX foram editados em alemão, francês e inglês importantes léxicos especializados em terminologia médica. Na Alemanha destacaram-se o dicionário de Ludwig Kraus, intitulado Kritisch Etymologisches Medicinisches Lexikon, e o de Walter Guttman, Medizinische Terminologie, cuja primeira edição data de 1902. 

        Na França a iniciativa de maior repercussão data de 1806 e se deve a Brosson, médico e livreiro que editou um pequeno dicionário de medicina e ciências afins, o qual foi ampliado por Nysten. Este dicionário foi posteriormente refundido e muito aumentado em 1873 por Littré e Robin, passando a chamar-se Dictionnaire de Médecine, de Chirurgie, de Pharmacie, de l’Art Vétérinaire et des Sciences qui s'y Rapportent, o mesmo título de outro dicionário semelhante, assinado unicamente por Littré, cuja 18. edição póstuma foi publicada em 1898. 

        O dicionário de Littré e Robin teve sucessivas edições, sendo que a 21. edição data de 1908 e traz a assinatura de Littré e Gilbert. 

        Também na França foi publicado, em 1899, o Dictionnaire des Termes Techniques de Médecine, de Garnier e Delamare, obra premiada pela Academia Francesa e que alcançou a vigésima edição em 1978. Desta última edição existe tradução para a língua portuguesa. 

        Finalmente a França ofereceu à comunidade científica em 1970 o monumental Dictionnaire Français de Médecine et Biologie, de Manuila e colaboradores, obra com mais de 150.000 entradas e da qual participaram 350 especialistas. 

        Na Inglaterra foram editados dois importantes léxicos: o Dictionary of Terms Used in Medicine, de Hoblyn (1830) e o dicionário de Mayne, intitulado An Expository Lexicon of the Terms Ancient and Moderns in Medical and General Science (1860). Este último, grandemente ampliado e atualizado, foi reeditado em anos posteriores (1881-1899) sob o nome de The New Sydenham Society's Lexicon of Medicine and Allied Sciences.[5] 

        Nos Estados Unidos da América do Norte vieram a lume no século XIX o Dictionary of Medical Sciences, de Robley Duglison, que alcançou a 21. edição em 1893, e o Illustrated Dictionary of Medicine, Biology and Sciences, de George Gould, cuja 3a edição data de 1896. 

        Dois outros dicionários médicos norte-americanos que tiveram grande sucesso e sobreviveram até os dias atuais, foram o Dorland's Illustrated Medical Dictionary e o Stedman's Medical Dictionary. O primeiro deles data de 1900 e chegou à 28ª edição em 1994, tendo sido traduzido para o espanhol, japonês e para o alfabeto Braille. O Stedman's Medical Dictionary teve sua 1ª edição em 1911 e a 23ª em 1976. Há dele uma tradução para o português. 

        Um dos mais modernos dicionários médicos em língua inglesa é o Churchill's Medical Dictionary, editado em 1989. Com mais de 2.000 páginas e cerca de 100.000 entradas, nele colaboraram 90 professores e especialistas de várias Universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra. 

        Em língua espanhola devem ser mencionados o Dicionário Terminológico de Ciências Médicas, de Cardenal, que teve seis edições entre 1918 e 1958, e o Dicionário Enciclopédico de Medicina, de Léon Braier, cujo êxito pode ser avaliado pelo fato de ter tido quatro edições em 25 anos (1955-1980). 

        No Brasil, os primeiros dicionários de medicina editados são, na verdade, tratados de medicina popular, nos quais os tópicos se dispõem em ordem alfabética. São eles o Dicionário de Medicina Popular e das Sciencias Acessórias, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, e o Diccionario de Medicina Domestica e Popular, de Theodoro Langaard. 

        Chernoviz era polonês de nascimento, tendo-se educado em Paris. Seu verdadeiro nome de família era Czerniewicz, mudado depois para Chernoviz. Viveu no Brasil de 1840 a 1855, tendo publicado várias obras, das quais as mais importantes foram o Formulário ou Guia Medica, que chegou a alcançar dezenove edições, sendo três póstumas, e o dicionário já referido, que desfrutou de grande prestígio e cuja 6ª edição data de 1890. 

        Theodoro Langaard era médico dinamarquês, radicado no Brasil, tendo publicado a 1ª edição de seu dicionário em 1865 e a 2ª em 1873. Sua obra mereceu comentários elogiosos de Von Martius, conforme consta do prefácio da segunda edição. 

        Em 1905, o eminente médico e filólogo Ramiz Galvão publicou o Vocabulario Etymologico, Orthographico e Prosodico das Palavras Portuguesas Derivadas do Grego, no qual se encontram arrolados os principais termos médicos em uso na época. 

        Em 1917, Plácido Barbosa publicou o seu Dicionário de Terminologia Médica Portugueza, cuja finalidade principal, conforme consta na Introdução do mesmo, era a de corrigir "os erros, os barbarismos, os vícios, as deficiências, as impropriedades e os desacertos de que anda inçado o vocabulário médico portuguez hoje em uso". Conforme o próprio autor reconhece trata-se apenas de uma contribuição a um futuro dicionário médico completo. 

        A primeira tentativa, infelizmente malograda, de se editar no Brasil um dicionário médico de maior amplitude data de 1923 e se deve a Serafim Vieira de Carvalho e Paulino B. Vieira.[6] 

        Em 1926 foi publicado o Dicionário Enciclopédico de Medicina, de Ricardo d'Elia, obra pouco difundida. 

        O dicionário médico que teve maior aceitação entre nós e alcançou sucessivas edições foi o de autoria de Pedro A. Pinto, professor de farmacologia da antiga Faculdade Nacional de Medicina (hoje Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de janeiro). A 1ª edição data de 1926 e a 8ª de 1962. Seu autor, que dizia não ser filólogo, era profundo conhecedor da língua e da literatura clássica portuguesas, tendo publicado inúmeros trabalhos e livros sobre questões de linguagem. Na maioria dos verbetes de seu dicionário encontram-se ensinamentos, conceitos e opiniões do próprio autor, o que muito valoriza esta obra. 

        Outras contribuições lexicográficas no campo da medicina surgiram no Brasil em anos posteriores, tais como o Dicionário Médico, de Mário Rangel (1951), o Dicionário Médico, de Hugo Fortes e Genésio Pacheco (1968) e o Dicionário Médico, de Rodolpho Paciornik (1969). 

        Algumas editoras, em diversos países, têm publicado traduções de dicionários médicos. De modo geral, as traduções de dicionários médicos não são recomendáveis. Os textos explicativos dos verbetes são, em geral, mal traduzidos, e neles se percebe a língua de origem, descaracterizando o segundo idioma. Além disso, não atentam para as peculiaridades da terminologia que o uso consagrou em cada país. 

        O mais moderno dicionário de termos médicos em língua portuguesa, editado em 1999, é de autoria de Luis Rey e intitula-se Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde. 

        O dicionário em epígrafe veio preencher uma lacuna no meio médico brasileiro e atender a uma necessidade não somente do meio médico, como de outros profissionais da área de saúde. O que põe em relevo e valoriza sobremodo esta obra é o lastro científico na conceituação dos termos averbados e sua feição enciclopédica e didática. Nela, os verbetes têm um tratamento diferenciado, abrangente, com definição precisa do seu significado, em sua única ou várias acepções, dentro da especialização semântica dos diferentes ramos das ciências biomédicas. Nela, o leitor se instrui e se atualiza, qualquer que seja o termo consultado. 

        Para alcançar esta alta qualidade, o autor contou com a colaboração de nada menos de 98 especialistas, os quais, segundo suas próprias palavras "contribuíram com seus conhecimentos científicos e com sua experiência" e "pacientemente reviram cada item das respectivas disciplinas". 

        Outra característica deste dicionário é a ênfase dada aos termos relativos às doenças infecciosas e parasitárias, com ampla cobertura da patologia tropical, o que atende à realidade nosológica do nosso País. O autor seguiu a Nomenclatura Internacional das Doenças do CIOMS/OMS, embora registre os sinônimos mais usados, com remissão para o termo que deve prevalecer. 

        Ao final de cada verbete encontra-se o termo equivalente em inglês, o que é muito importante na época atual de hegemonia da língua inglesa nas comunicações científicas e contribui para evitar os falsos cognatos que infestam as traduções de livros técnicos no Brasil. 

        O dicionário do Prof. Rey prima ainda pela clareza e correção da linguagem, perfeito domínio do idioma pátrio e cuidadosa revisão tipográfica. As questões lingüísticas mais polêmicas foram tratadas com sabedoria e bom senso, sem as amarras do puritanismo vernáculo e atentando para a tradição da linguagem técnica usada em biologia e medicina. Citamos como exemplos as opções adotadas para as palavras, acalásia, amilase, anquilose, autópsia, catéter, colecistocinina, crossa, dengue (s.m.), diabetes (s.m.), dissecção, espinhal, estádio, hemácia, lipídio, má-absorção, óptico, parasito, peritônio, retardo, entre outras. 

        Discordamos do Prof. Rey somente em duas de suas opções. A primeira delas se refere às palavras formadas com o determinado grego -soma, tais como cromossoma, desmossoma, ribossoma, etc, em que este radical foi modificado para -somo: cromossomo, desmossomo, ribossomo, etc.. A segunda diz respeito à tireóidee seus cognatos, em que foi adotada a raiz -tireo, em lugar de tiro, em desacordo com aNomina Anatomica. 

    Retiraríamos também o termo enfarte como sinônimo de infarto e consideraríamos cólera, doença, somente do gênero masculino. 

        Com estas poucas ressalvas, o dicionário do Prof. Rey nos libera da tutela dos dicionários gerais, cujos autores, embora profundos conhecedores da língua portuguesa, ignoram as peculiaridades e a tradição da terminologia científica. 

        Conforme ressalta o Prof. Idel Becker em seu livro Nomenclatura Biomédica no Idioma Português do Brasil, este assunto é da competência exclusiva dos profissionais da área biomédica. São as sociedades científicas que devem procurar definir o significado de cada termo técnico da área biomédica e decidir com conhecimento de causa quanto à sua grafia e pronúncia. 

        O importante, quando consultamos um dicionário, seja técnico ou geral, é que estejamos conscientes de que nem sempre vamos encontrar tudo que desejamos; de que o registro que buscamos pode revelar apenas um ponto de vista sobre uma questão que comporta duas ou mais interpretações. Devemos estar convictos de que os dicionários não são infalíveis e que os seus ensinamentos podem ser questionados. 

        É importante que façamos o cotejo entre um e outro léxico, que consultemos mais de um autor, comparando o que escreveram sobre a mesma palavra. Por vezes os textos são idênticos; por vezes há divergências quanto à grafia, quanto à prosódia, quanto ao gênero da palavra, quanto à etimologia, quanto à semântica. Uns são mais completos que outros, ao assinalarem as diversas acepções de um mesmo vocábulo, e mais ricos no exemplário das fontes consultadas. Há dicionários de todo jaez, de épocas diferentes, edições mais bem cuidadas que outras, com muitos ou poucos erros tipográficos. 

        Assim, ao nos referirmos a um dicionário, é necessário mencionar sempre o autor, a edição, o editor e o ano da publicação. 

     No tocante à terminologia médica, nós médicos devemos manter certa independência e espírito crítico em relação aos dicionários gerais que fazem incursões pela terminologia científica. De modo geral, tais dicionários definem de maneira incompleta, ou mesmo incorreta, o significado de termos médicos, além de impor normas de como escrever ou pronunciar tal ou qual palavra, ao arrepio do uso e da tradição da linguagem médica. 

Referências bibliográficas
(restritas às consideradas essenciais)
HOUAISS, A. - Estudos vários sobre palavras, livros, autores. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979, p. 104. 

  1. 2. MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO - História da tipografia no Brasil. São Paulo, Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia, 1979, p. 178. 

    3. MORTON, Leslie T.: A medical bibliography (Garrison and Morton), 4.ed.
    London, Gower, 1983, p. 902. 

    4. MANGABEIRA-ALBERNAZ, P. - Questões de linguagem médica. Rio de Janeiro, Liv. Atheneu, 1944, p. 171. 

    5. SKINNER, H.A. - The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams & Wilkins, 1961, p. 435-437. 

    6. ALMEIDA, S., VIEIRA, P.B. - Dicionário de termos médicos. Rev. de Língua Portuguesa, ns. 21 a 39, 1923-1925.
Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..
Joffre M de Rezende 

Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás 
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina