outubro 21, 2011

Augusto Toshiro Kasahara Omi: 'Fofoca'


Todos sabemos que fofocar, falar mal dos outros é errado. Ao cometer tal ato, você não está em busca da santidade. Muito pelo contrário...
 
Não espalhe mexericos e críticas. Você está trabalhando para o diabo quando usa essas armas e ele sempre paga na mesma moeda. As pessoas acham o que buscam. Tanto as que procuram paz como as que procuram guerra.
 
É um hábito muito forte criticar os outros. Quem não já falou que o filho de fulano não gosta de estudar. Mas será que o seu filho estuda de fato?
Ficava a me questionar se eu não poderia observar os defeitos alheios, se não poderia falar sobre os atos errados dos outros. Essas dúvidas me acompanharam durante muito tempo. Atualmente, eis meus entendimentos a propósito: a vida dos outros é laboratório. Se você não apender com o erro do outros, cometerá os mesmos equívocos. Eu acho que você tem a obrigação de identificar o que é certo e o que é errado. Contudo, as análises devem ser feitas no recôndido de sua mente. Nada de comentar com os outros. Com referência a divulgar, ou não, as falhas de outrem, sigo a regra: se prejudicar outras pessoas, próximas minhas, não ficarei silente. As respostas, depois de muitas pesquisas, encontrei no Capítulo X do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (Bem-aventurados os que são misericordiosos). Transcrevo a seguir, os sábios ensinamentos:

É permitido repreender os outros, notar as imperfeições de outrem, divulgar o mal de outrem?

19. Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?

Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada. Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprido com todo o cuidado possível. Ao demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio, procurando saber se não a terá merecido. - S. Luís. (Paris, 1860.)

20. Será repreensível notarem-se as imperfeições dos outros, quando daí nenhum proveito possa resultar para eles, uma vez que não sejam divulgadas?

Tudo depende da intenção. Decerto, a ninguém é defeso ver o mal, quando ele existe. Fora mesmo inconveniente ver em toda a parte só o bem. Semelhante ilusão prejudicaria o progresso. O erro está no fazer-se que a observação redunde em detrimento do próximo, desacreditando-o, sem necessidade, na opinião geral. Igualmente repreensível seria fazê-lo alguém apenas para dar expansão a um sentimento de malevolência e à satisfação de apanhar os outros em falta. Dá-se inteiramente o contrário quando, estendendo sobre o mal um véu, para que o público não o veja, aquele que note os defeitos do próximo o faça em seu proveito pessoal, isto é, para se exercitar em evitar o que reprova nos outros. Essa observação, em suma, não é proveitosa ao moralista? Como pintaria ele os defeitos humanos, se não estudasse os modelos? - S. Luís. (Paris, 1860.)

21. Haverá casos em que convenha se desvende o mal de outrem?

É muito delicada esta questão e, para resolvê-la, necessário se toma apelar para a caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes. - São Luís. (Paris, 1860.)

outubro 19, 2011

confirmado: 'quando a gente mora no outro', em 11/11/11




mas, vamos por parte, disse o jack. hoje foi um dia histórico, também. o dia da primeira gravação (retorno) do catalendas, depois de três anos, sem investimento. até dezembro será gravada uma série com 10 episódios inéditos que talvez possam ser lançados ainda este ano. daí, para a televisão, dvd, e peça literária. a plataforma utilizada é semelhante a produção de películas nos seus vários campos, como imagens, momento de produção, e outros. o catalendas é o programa infantil de referência em pesquisas de narrativas populares, como também, de teatro de bonecos, reafirma roger paes, ator e diretor, 'pela segunda vez o programa ver tv, da tv câmara, me chama para falar do catalendas (início de outubro), porque o programa catalendas é um dos programas mais assistidos da tv brasil, em rede nacional, apontado através de pesquisa do ibope.

e, 'quando a gente mora no outro', peça de teatro da companhia de atores contemporâneos, será lançada no instituto de arte do pará – iap, em três finais de semana – sexta, sábado(21h) e aos domingos, às 20h. a partir do dia 11/11/11. comemoração dos 20 anos de teatro de miguel santa brígida.


conheça o roger paes[por cá]

outubro 14, 2011

[Fé no inexistente]: Conto de Rhobson Christopher


I
Seu Tavares, velho mecânico, batalha contra o aro de um pneu que teima em nele permanecer. A força já não é a mesma, e o esforço empregado o leva a agradecer por não ter que ganhar a vida como borracheiro. Mas agora precisa ser: precisa separar a borracha do metal empenado, desentortar o metal e reuni-lo novamente à borracha. “A teoria até que é simples”, pensa cansado, suado, sedento, faminto.
Neste momento, a três mil metros, Aurélia voa para o oceano, o continente que ele traz e a outra vida que floresce por lá. Para o novo, para a promessa de riso. Na troposfera de sua esperança, Aurélia voa para o seu amor.
A outra pessoa seria fácil pensar em desistir da loucura de ser feliz, mas Aurélia não era comum. Talvez fosse, no conjunto que pode apresentar uma mulher de meia idade, filhos ausentes, divórcio no currículo. Contudo possuía brilho próprio, uma vontade mais pesada que os pecadilhos empilhados na balança da maturidade, e com esta vontade criava paixão: apaixonadamente entregava-se a cada nova atividade, aprendendo, vivendo os minutos que julgava ter perdido com o casamento — e perdera tanto... — Uma vez livre, muito experimentara e aprendera; muito viu e viveu de um mundo recém-descoberto até que, por fim, sentiu-se incompleta. Então foi salva. Salva a distância, é claro: “em um país onde o respeito é atributo dos ingênuos, salvamentos locais são, cada vez mais, inadequados e, ocorrendo, resultam efêmeros”, diria ela. Por isso voava — pensamento junto.
A senhora deseja alguma coisa? — perguntou a comissária, rosto bonito, “saída do banho”, carrinho empurrado.
Aurélia voltou ao mundo — Hã? Bem... Só um refrigerante, minha filha, obrigado — e abriu um sorriso — Nós estamos no horário? Eu estou sem relógio...
A moça olhou para o pulso e devolveu o sorriso:
Estamos sim. A senhora não quer se atrasar, não é?
Não quero mesmo. Sabe, meu “gato” me espera ansioso — e, sacando seu tesouro do bolso — Olha só: não é lindo, o meu amado?
A moça olhou a foto e foi incapaz de discordar. O amado era realmente bonito, com seus traços europeus fortalecidos pelo tempo. Sentiu vontade de ficar e conversar mais (Aurélia adoraria), mas trabalhava, e ainda havia muitas poltronas a visitar. Devolveu o tesouro à dona — Parabéns, vocês formam um belo casal — e a serviu.
Aurélia recebeu o copo e sentiu frio. A temperatura do conteúdo misturava-se à corrente de ar que vinha do norte e à corrente de medo que vinha do corpo. Fuselagem, pressão interna, estofados, livro ou filmes pouco adiantariam: o frio já estava ali, como se repentinamente deixado por aquela abelha esguia, que pulava de assento em assento a depositar punhados de gelo no ventre de cada ocupante. A bebida era agradável, e dava ao esôfago um leve amortecimento a cada novo gole. Aurélia sentia, e olhava o líquido. Não sentara à janela e a leitura estava chata. Então bebia devagar, para não acabar. E olhava o líquido. Flutuando, uma pedra de gelo que parecia conter uma chuva fina, parada. “É curioso como os cubos de gelo se formam: as gotas de ar congelam sua viagem, param no tempo, formando imagens tão bonitas que nem parecem existir. Ah, quem me dera ter alguém pra conversar”. Não havia ninguém; o colega de poltrona estava dormindo, e não poderia ouvir as magníficas histórias que Aurélia contaria com paixão. Não eram muitas histórias, mas, afinal, eram todas importantes: eram as histórias de sua vida, ora! E seriam corajosa, simpaticamente, oferecidas a qualquer ouvinte.
Seu Tavares não sabe de histórias, não tem tempo para bobagens. Já tivera, é claro: quando ele e a patroa — “Que descanse em paz” — eram belos e fortes, quando o tempo tinha mais futuro do que passado. Agora o que havia era um presente raquítico, fugidio. Havia também a filharada, é claro: quatro bocas, de várias idades — “Cadê o mais velho, que não chega?”
Não há tempo para bobagens porque o mundo de Seu Tavares é mais sensual. Nele a graxa suja, não lubrifica engrenagens; a gasolina cheira forte, não faz o carro se mover e a opinião pública possui as cores do telejornal, não reflete o que ele, Tavares, pensa. É o mundo concreto, utilitário. E, como a utilidade é determinada pelo poder, criador do sistema de controle social, nada mais natural que Seu Tavares pense como o sistema acha útil que ele pense. Vivesse em 1668, encontraria teólogos afirmando que as bruxas tinham que existir (porque, afinal, todos acreditavam nelas), e assim pensaria. Já em 1945, alinharia-se à idéia de que é direito do Estado supervisionar a formação da opinião pública. Mas Seu Tavares vive hoje, admitindo que qualquer coisa em que muitas pessoas acreditam é verdade. Em um mundo assim, ler é compreender a página de futebol do jornal para jogar na loteria.
De fato, para que ler? Isso não vai mudar sua vida. As preocupações são mais imediatas: ler não pagará a conta de luz que chegou ontem, ou a conta de telefone que novamente cobrava por ligações que não fizera. O país de Seu Tavares não precisa de mais um leitor. Aos Deputados ladrões, Ministros deslumbrados, amantes das CPIs-desestabilizadoras-de-governo ou mesmo ao cidadão comum que não hesita em levar uma vantagem de migalhas sobre um “otário” de boa-fé, o que interessa a (falta de) leitura dos milhões de “Tavares” do país de Seu Tavares? Para o mecânico, importante é ganhar o sustento, por isso o filho já ajudava na oficina. “Trabalhar desde cedo ensina o valor do suor. Estudar pra quê? Pra mais tarde ser um doutor safado?”.
Táqui a água, o café e o sanduíche — chegou o filho de vinte anos — não tava gelada, então saí pra comprar o gelo.
E onde o comprou? No Ártico? Que demora, eu quase morro seco...
Seu Tavares continuou falando e o filho ocupou-se do pneu. Minutos depois, a fala cessara e o aro já estava desentortado. Sentado sobre um capô, o velho mastigava enquanto olhava para a rua, quitanda à frente, filha comprando verduras. Alva, rósea, a mocinha de primeiro soutien conversava animadamente com Dona Velhinha, a vendedora — uma velha magra de sorriso lacunar que atendia sentada ao banquinho de madeira —. Apesar de seus esforços, o velho não adivinhava o que duas mulheres tão diferentes poderiam conversar. Mas desconfiava: “só pode ser homem”. E a conversa prosseguia.
A vendedora era uma antiga moradora do bairro, viúva que há muito preferira a solidão a outro convívio marital. Se tivesse motivos para amargura ninguém saberia, pois sempre ostentou um comportamento absurdamente feliz, tão efusivo que apostar-se-ia verdadeiro. Seus próprios hábitos eram mais condizentes com os de uma novata nesse negócio de ser mulher do que com os de uma veterana do ramo, o que suscitava certo deboche das veteranas que batiam ponto à janela. Mas Velhinha não dava atenção a isso, nunca dera, vivendo sua independência feliz e igualmente iletrada. E daí que gastasse com todas aquelas revistas caça-níqueis para adolescentes? “Os níqueis são meus, não é mesmo?” E daí que desse crédula seu dinheiro a qualquer um que se apresentasse bem vestido ou a cobrisse de elogios? “Eu empresto, sim: elogios me mantêm viva e alegre, não importa de quem venham”. Já trabalhara muito, agora aproveitaria; recebia pensão pela morte do marido, não precisava da quitanda para sobreviver, e daria até o último centavo para ser feliz até o fim. De qualquer forma, não era totalmente solitária: com a morte do marido a casa ficara imensa, então alugara um quarto àquele rapaz magro, que trabalhava durante o dia e estudava à noite. “Bom menino: paga no prazo e não é dado a barulhos ou indecências. Mas precisa se alimentar melhor, senão pega uma fraqueza” — pensava, enquanto ocasionalmente levava ao moço um prato de sopa.
Por sua vez, a menina aceitava aquela amizade, pois a opção era a conversa dos três irmãos ou do pai, tão próximos de sua realidade quanto Aurélia daquele bairro empobrecido. No fundo, gostava da companhia de Velhinha, principalmente após a chegada do moço, ao qual devotava uma atenção que ultrapassava a simpatia. Às conversas ele era tema recorrente, e Velhinha passava todas as informações a respeito do misterioso magricela de óculos, que só ganhava a rua para algum nobre fim, e cuja aparência era motivo de escárnio de Seu Tavares e do filho mais velho:
Lá vai o Rui Barbosa, cheio de livro.
Tão fino e tão branco que parece que só come papel, o traça.
Alheio à gozação, o rapaz seguia seu cotidiano com uma rotina tão firme que a menina sabia com exatidão a hora em que chegava da faculdade e os dias em que ia ao supermercado ou deixava o lixo na rua. Certa vez, até adivinhara a roupa com que seu ídolo sairia. Naturalmente, uma aproximação era impensável: ele a acharia muito nova, o pai não admitiria, ela faria papel de tola ao dizer alguma bobagem ou qualquer outro das dezenas de motivos que impossibilitavam o namoro era razão suficiente para mantê-la a distância. Mas os motivos não falavam nada sobre impossibilidade de amor, então ela amava. Sozinha. Anônima.
Seu Tavares, filhos, filha, Dona Velhinha, rapaz, velhas fofoqueiras. O bairro inteiro, todos os dias, apresentava os mesmos rostos e a mesma vida. O bairro inteiro envelhecia imerso no mesmo nada, envelhecia esperando o tempo passar. Um ou outro morador, é claro, faria o papel de alforriado, livre dos grilhões da pasmaceira burra para ver outro aspecto do mundo. Daquele conjunto o mais cotado era o rapaz, considerando seu esforço para evoluir. Ou a própria menina, que poderia procurar a educação como forma de ganhar um título de nobreza e então, ao mesmo nível de seu príncipe, ser digna de nota e admiração — ainda que os motivos fossem errados, os ganhos futuros validariam seu propósito.
Mas o bairro vivia a realidade, não o ideal, onde o efeito é necessariamente fruto da causa; onde a fé seria a causa da revelação; onde o rapaz inevitavelmente ascenderia graças à sua fé no aprendizado ou a menina casaria com o rapaz como recompensa da fé que mantivera no amor. Pois quem mudou de perspectivas foi Seu Tavares, cuja fé em algo inexistente como a lógica de uma aposta lotérica proporcionou-lhe os milhões necessários para nunca mais pôr sua força física à prova. Com os milhões vieram a mudança, a troca de vida e o fim das esperanças da menina romântica. O resto, continuou o mesmo.


II
Ao cruzar o portão com suas malas, Aurélia foi recebida pelo namorado. Um abraço carinhoso e um beijo sincero apagaram por completo o cansaço da viagem — até a diferença de fuso estava esquecida, substituída pelo contentamento que o romance trazia.
Naquele hall de aeroporto, Aurélia e o amado viam-se pela primeira vez. Um sentimento envolvente e confortador dominava o único casal do mundo, há muito ligados, há tanto queridos, colados em meio ao frio e aos milhares de viajantes sem importância. Sabiam quase tudo um do outro graças às bênçãos da Internet. O que de novo o médico e a jornalista pudessem descobrir seria deliciosamente desfrutado em companhia, e ter consciência disso tornava o encontro ainda mais doce.
Malas no carro, partiram para o hotel. É claro que ela não ficaria na casa de um desconhecido, embora o amasse — uma situação que Seu Tavares jamais entenderia: “como é possível amar alguém que nunca se viu? Um completo estranho? Esse negócio de computador virou o mundo de cabeça pra baixo, mesmo...” — No caminho, tudo era explicado, mostrado, aprendido sem pressa. O mundo que parasse: após tanta procura, desfrutavam cada segundo de um prêmio há séculos desejado: refariam suas vidas, distantes da solidão. Chegada ao hotel, registro, malas no quarto, ela estava pronta para um passeio. O amado não deixou:
Agora a minha princesa vai descansar. Volto daqui a três horas.
Ela concordou. O namorado não imaginava quanta energia continha aquele corpo minúsculo de mulher, mas não havia sentido em discutir por tão pouco. Além disso, ele estava certo: por mais energia que sentisse, ela faria bem ao não se exceder. Sozinha em seu quarto, coração trabalhando novamente, pés descalços afundados nos tapetes, arrumou em um vaso o ramalhete que recebera do amado tão logo o encontrara ao desembarque. Dali a pouco, um banho quente seguido de uma xícara de chocolate e edredom de algodão encerrariam o início da tal loucura de ser feliz.
Horas mais tarde, era noite. O frio, valente, lutava contra o bem-estar do casal, mas fracassava: à mesa do belo restaurante, o gosto do vinho e dos olhares trocados dava ao frio a mesma importância que o casal dispensava aos garfos prateados. O tempo correu, terminou o jantar. Em seguida, um passeio às margens do rio, conversas amenas presenciadas por aquele círculo brilhante no céu, e Aurélia sentia a segurança de braços fortes, carinhosos, pensando que o paraíso deveria ser parecido com aquilo. O amado sentia distantes as experiências tristes do casamento desfeito e das promessas de amor encontradas a partir de então. Naquele momento, cada beijo não apenas oferecia um querer mútuo, mas um futuro agradável e sereno. Após os minutos de alegria, a indecisão do final de noite; a timidez do desejo, a preocupação do que o outro pensaria de uma proposta mais ardente. Àquela idade, certamente sabiam lidar com o sexo e os encantos do corpo de um novo parceiro, mas viviam uma experiência tão inédita quanto ainda viveria a filha de Seu Tavares. Cada um tinha, diante de si, alguém de outra cultura, de hábitos diferentes, uma conquista muito preciosa que não deveria ser perdida por uma impressão errônea. Na virgindade de um romantismo juvenil, os amantes encontravam-se diante da indecisão do primeiro encontro de quem já se conhecia há um ano. Terminaram o impasse com um beijo à porta do hotel, e com os planos para o dia que já chegava.
O dia chegou, e encontrou Seu Tavares orquestrando, com toda diligência de que era capaz, a mudança da família. Tudo fora guardado, empacotado, ensacado. A oficina estava fechada, e ficaria ali, juntamente com a casa, até que encontrasse um comprador. Os meninos obedeciam àquelas ordens frenéticas ainda sem saber quem era aquele parente distante cuja morte obrigava uma visita de todos e o abandono das obrigações diárias por um tempo tão prolongado. Muito menos sabia a vizinhança, que entendia naquela saída abrupta a fuga de algo, ou de alguém.
Deve ser alguma dívida que ele não pôde pagar — dizia a primeira fofoqueira.
Vai ver que hipotecou a casa, o miserável. Como bebe tudo o que ganha naquele lixo de oficina, com certeza perdeu o imóvel. Coitadas das crianças, o que será delas? — dizia a segunda, benzendo-se.
Horas depois o táxi chegou. Seu Tavares espremeu atrás os quatro filhos e pulou no banco da frente, ordenando:
Hotel de Tal.
O carro partia, forçando a menina a olhar para trás, para a casa de Velhinha, para a janela do quarto do moço, até que uma curva tirou do campo de visão o castelo onde seu nobre escolhido passava as noites. Não havia certeza, mas ela sentia que não voltariam: algo de muito especial acontecera, obrigando-os a abandonar o bairro. Não quis chorar (bem seria capaz, as lágrimas já estavam prontas para sair, esperando permissão), não seria criança no meio dos meninos. Mas manteve-se calada por toda a viagem, mal notando o falatório dos irmãos e a conversa fiada do pai com o motorista. Encolheu-se entre o mais velho e a porta do carro, pensando no que teria vivido se permanecessem no local.
Instalados no hotel, Seu Tavares reuniu a família em um quarto e explicou:
É o seguinte: não tem nenhum parente morto. Só queria tirá-los de lá sem que a notícia “vazasse”: estamos ricos! Ganhamos na loteria, e ficaremos aqui até amanhã, quando viajaremos pro interior. As passagens já estão compradas, e estou de olho em uma chácara que vi no jornal. Tem tudo lá: pomar, olho d’água, umas cabecinhas de gado...
A menina ouvia aquilo entendendo o que sentiam os inconfidentes mineiros que receberam a sentença de exílio. “Ainda nesta semana a professora falou sobre isso, e eu nem desconfiava de que viveria situação parecida”.
... E aproveitaremos o resto do dia pra comprar roupas e algumas coisas pra viagem. Vamos comemorar um pouquinho também, ninguém é de ferro! Umas geladas vão bem a calhar...
O final do discurso já era ouvido em meio a gritos eufóricos, pulos, abraços, risos e brincadeiras. Os meninos dançavam abraçados ao pai, e todos rodeavam a menina, que esboçava seu melhor sorriso forçado. No centro da felicidade, abraçada, solta e novamente abraçada, ela descobria que realmente fizera do moço o futuro de sua vida. Agora, a um passo da explosão deste futuro, a melhor notícia ainda seria incapaz de alegrá-la: estavam ricos, isso é maravilhoso; mas o moço ficara no bairro, lutando sozinho. E se Velhinha morresse? O que seria dele?
Para seu pai o bairro era, no máximo, uma lembrança fraca. Aquela realidade perdera um velho ignorante e o país de Seu Tavares ganhava um novo rico pobre, com dinheiro suficiente para comprar respeito e óculos-armação-de-ouro com os quais soletraria seu nome ao assinar a lista oferecida pelo mesário, a cada nova eleição. Uma verdade mundial que, no país de Seu Tavares, assume a máxima expressão: o dinheiro aloca em diferentes camadas sociais pessoas com a mesma pobreza cultural. Nada disso agora importava, era preciso aproveitar o tempo. E aproveitaram: um dia inteiro foi gasto com preparativos e cervejas. Amanhã partiriam, ricos e desconhecidos, rumo ao sossego e ao conforto. Restava apenas dormir: nem precisavam mais sonhar.
O novo dia trouxe calor. As janelas do ônibus foram abertas, as garrafas de água mineral ficaram vazias, mas somente a pausa para o almoço naquela churrascaria com banheiro e água fresca aliviou o desconforto que a família sentia em uma típica manhã de sol. Naquele exato momento Aurélia e o amado sentiam frio no parque, ainda sob a atmosfera de lua-de-mel-semi-concretizada. Voltavam de um passeio após o almoço, horas atrás. Novas conversas e alguns risos, aproximavam-se do hotel abraçados, calados, muito mais íntimos.
A calçada perfeita, as árvores podadas, as nuvens e até as pessoas atraentes pareciam pintadas na fase azul de Picasso, exprimindo um lugar bonito, mas criado por um artista de paleta intencionalmente limitada. “Ah se o artista sentisse o amor deste momento! Suas cores seriam outras”, divagava Aurélia, imaginando as cores quentes do país de Seu Tavares. Por um breve instante ela desejou unir a beleza e organização do país do amado com o clima de sua terra natal. “Que agradável mistura seria: o que deu certo de cada país em uma nação híbrida, de pessoas que se respeitam vivendo em um território idílico”. O sonho foi interrompido com o aperto no abraço: o amado a chamava de volta. Estavam à porta do hotel, e ainda não eram cinco horas. Uma brisa fina surgiu, gelando narizes e dedos, aumentando o rubor dos namorados. Ele estava mais bonito do que na véspera, expressando naquele olhar um carinho indescritível. Ela desistira de ajeitar os cabelos, agora dançando ao sabor da brisa, pois era mais importante retribuir o olhar: aquele momento era bom demais, ambos sabiam que deveriam prolongá-lo. Passaram o resto do dia no quarto de Aurélia e, após uma noite de amor, já sabiam um do outro tudo o que precisavam para escolher o primeiro dia do mês seguinte como data do casamento.


III
Seu Tavares concluiu o negócio iniciado ainda na Capital, ao telefone, tornando-se proprietário de um considerável lote de terras, modestamente denominado “chácara”. Faltava apenas aprender o que fazer com ele, já que nunca lavrou ou criou gado. “Sem problema”, pensava, “não serei eu quem porá a mão na massa; só preciso de um bom capataz.” Tão logo instalado, percorreu a cavalo boa parte de seus domínios, ladeado pelos três meninos. Cada um dos três experimentou sua queda, e todos riam bobos a cada novo tombo. Se os risos eram provocados pelo ridículo do erro ou porque, inconscientemente, sabiam que sua história já estava escrita, seria impossível saber. O certo é que todos cresceriam fortes, aprenderiam a cuidar de seu patrimônio e manter-se-iam unidos ao pai até quando pudessem, pois sua ligação ia muito além da mera obediência: incapazes de um pensamento próprio e original, eles viam o mundo pela ótica de Seu Tavares. O pai fizera questão de moldar seus controlados assim como era controlado pelo Estado, atendendo a uma microfísica do poder onde os motivos seriam a ordem e a disciplina. “Um pai deve ter sua autoridade”, diria o velho com a sabedoria de um autômato chefe de família que não chefiava sua própria vida. É claro que, para isso, os meninos não deveriam saber mais do que ele, então nada dessa besteira de escola. E os meninos, paradigma da estupidez, sem saber o que seria de seu futuro caso o pai não tivesse apostado no “Barça do Fenômeno”, seguiriam em frente repassando sua experiência de vida aos filhos e agradecendo ao pai por seu conhecimento sobre a “eorópia” — com o qual ganharam tanto.
A menina ficara em casa, limpando alguma poeira, vendo o horizonte vazio à janela. O céu azul e o solo muito verde garantiam a crença em um futuro sem grandes incertezas ou privações. A certeza que se pode ter em uma fé constitui um bem pelo qual muitos morreriam, e a jovem reconheceu possuía muita coisa. Tudo estava certo: a repentina riqueza de uma família humilde e honesta (que agora fora recompensada), o negócio bem feito com o antigo dono da chácara, o aceno de felicidade futura com uma boa velhice para o pai e um sentido para a vida dos meninos. Mas algo a inquietava; não era apenas a quebra da fé em um romance juvenil, mas a impossibilidade da resposta àquela proibição. Por que era proibida àquele amor? Por que a mudança na quantidade das moedas que trazia ao bolso deveria alterar seus propósitos? E, se não tivesse tantas moedas, por que deveria sentir-se inferior?
O sol indicava o fim da manhã com um brilho por toda a campina. A moça recebia a luz como um sinal de que era empurrada. Impelida pelo sol a ir para o quarto, refazer a mala, sentar sobre ela esperando pelo pai e a surra provocada pela decisão de morar sozinha e continuar os estudos na Capital. Não teve medo. Chegou o pai. Ela falou. Ele gritou, bateu e proibiu. Os meninos o apoiaram. No dia seguinte, um bilhete foi encontrado na mesa da cozinha, selando o fim de uma relação inexistente, alquebrada pela diferença de valores e perspectivas.
Dias depois, Velhinha acolhia uma nova filha. A moça inventara uma desculpa, e o bairro continuou desconhecendo a riqueza do ex-mecânico. Seu Tavares pouco se importava com o destino da filha menor de dezoito anos. Na verdade, era um alívio desfazer-se de alguém distante, sem “assuntos interessantes” e rebelde o suficiente para contaminar os meninos. Em suas contas, nada perdera: abdicou de uma (que envergonharia a mãe se viva estivesse) para manter três. Nem mesmo soube que a menina voltara ao bairro: suas novas responsabilidades exigiam atenção. Longe da miséria, Seu Tavares continuava ocupado demais para pensar em bobagens como ingratidão de filha. E ainda viveu por algumas décadas, engordando com os meninos.
Anos mais tarde, Dona Velhinha morreu. Um infarto súbito, noturno, chegou à idosa que, na cama, expirou sem sofrimento, sem dar trabalho, tão livre quanto sempre vivera. Se pudesse escolher, esta seria a morte preferida — sempre fez o que preferiu.
Como os outros moradores do bairro, Velhinha viveu à sombra do sistema. Porém, de algum modo, encontrou uma alternativa de liberdade em sua prisão. Como os demais, não teve tempo para educação formal, e se tivesse, um livro de astrologia sempre seria mais interessante do que um de astronomia. Para que perder tempo com o nome do sistema solar, quando o sustento era garantido e havia tanta possibilidade de diversão? A vida estava ali, a passar; ela não deixaria que passasse ao lado: preferiu postar-se de frente, braços e boca abertos, respirando, engolindo, sentindo o que pudesse, enquanto podia. “A vida é pra ser vivida enquanto se está vivo; preocupo-me com outra coisa quando morrer. Enquanto estou viva, viverei” — e salve, ou melhor, viva, a cultura popular!
Sob o manto da cultura popular o sistema oprime, controla, sujeita, agride. É o maior interessado na cultura alienante, uniformizadora, criadora de modismos, coreografias e jargões. “Muito bem, Velhinha! É isso mesmo, meu amor”, diria o sistema, enquanto garantiria mais circo às milhares de Velhinhas do país de Seu Tavares. Ainda assim, o comportamento íntegro daquela mulher guardava algo de contestador: ela contestava quando era autêntica, quando prescindia do lugar-comum das desocupadas de sua idade, quando interessava-se em dar a uma estranha a correta criação. Velhinha, em sua tragédia, estava presa, mas cuspia nas paredes da cela.
O moço, grato pelos anos de cuidado, permanecera morando no mesmo quarto, mais por preocupação com Velhinha do que por comodidade. O Doutorado terminara há pouco, e aquela vaga na multinacional foi outra importante vitória: boa remuneração, possibilidade de carreira e, principalmente, não impediria as palestras no exterior. Mas não deixaria aquele local enquanto pudesse arranjar-se por lá. Não abandonaria aquela idosa gentil. Havia também a menina... Não, não menina: aquela moça recatada, responsável. E linda...
O enterro foi providenciado pelo rapaz e pela filha de criação. Eram os únicos “parentes” de Dona Velhinha. O resto era formado pelos curiosos do bairro, capitaneados pelas fofoqueiras de janela. Cantiga, leitura de padre, sepultamento. Cerimônia simples e rápida. Volta para a casa, que agora seria cuidada pela moça, assistente social, principal legatária do patrimônio da “mãe”. O outro beneficiado era o rapaz, engenheiro cujo nome começava a ser mundialmente reconhecido, legatário de dinheiro e do exemplo de simplicidade da benfeitora.
A vida prosseguiu; o bairro continuou o mesmo. Certas mudanças eram imperceptíveis (as fofoqueiras, por exemplo, continuariam à janela, mas representadas por suas filhas e netas), de modo que um visitante estrangeiro, que tivesse conhecido o bairro de infância da menina e agora retornasse, imaginaria, em seu juízo imparcial, décadas de inércia. Talvez comparasse aquele nada com o tempo estático do interior de um cubo de gelo.
Com muita sorte, este visitante poderia ver, em um saguão de aeroporto europeu, um jovem casal conhecer um maduro casal: ajudando com uma bagagem caída, os jovens descobririam que a grata senhora chamava-se Aurélia e que viajava com seu esposo em visita ao Brasil. A moça diria que estavam de chegada e que acompanhava o marido em mais uma de suas palestras. Todos muito longe do país de Seu Tavares e seu sistema cancerígeno. Imersos em outro tipo de sistema (mais humano e social, talvez).
Então o visitante concluiria ter conhecido arquétipos. Não do indivíduo Jungiano, mas de todo um país. Facilmente reconheceria as características de cada um: a ignorância de Seu Tavares, a estupidez dos meninos, o sonho da menina, a liberdade de Dona Velhinha, o futuro do moço, a mediocridade das fofoqueiras, a esperança do amado e a coragem de Aurélia. As características representavam o conjunto do país de seu Tavares, e as lúgubres conclusões do visitante naturalmente valeriam para todo o país: enquanto o sonho e a promessa de futuro apaixonam-se e defendem-se mutuamente como ilhas raras, enquanto a esperança faz com que a coragem voe para além do oceano, enquanto morre a liberdade, resta a sobrevivência da ignorância e da mediocridade, e cresce, fortalecida, a estupidez.
Quem está livre do sistema? Ninguém. O que o sistema produz? Uma realidade perversa, totalmente explícita em um conto pessimista qualquer, de personagens perdidas e esperanças ameaçadas, acuadas. Como gotas de ar congeladas, paradas no tempo, tão bonitas que parecem irreais, inexistindo na troposfera da crença de qualquer donzela por seu salvamento. Fé na inexistência de momentos bons, inadmitidos pelo tal sistema opressor, mas cristalizados na memória — se vierem a ocorrer.

imagem: google


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Registro no Escritório de Direitos Autorais (EDA),

da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro são:

FÉ NO INEXISTENTE -
AUTOR: RHOBSON CHRISTOPHER -
Registro EDA-BIBLIOTECA NACIONAL/RJ:
471050-04/09/2009.

[Nascimento de uma flor]: Conto de Rhobson Christopher




I

Clara tossiu três vezes antes de abrir os olhos. O nariz, é óbvio, já estava acordado, funcionando mal; sempre escorria um pouco, em toda manhã subseqüente a uma noitada regada a pó. Então veio o gosto, e com o gosto a sede que, horas atrás, uma garrafa inteira de whisky não fora capaz de matar. Esta, ao menos, era uma necessidade fácil de satisfazer: bastava arranjar uns ossos ainda grudados em músculos obedientes, e ela se arrastaria à cozinha. Corajosa, lutou para ir do plano à prática.
Em um arremedo de andar, Clara, dezenove anos, verdadeira flor de cabelos e olhos castanhos, rosto delicado, pele branco-gelo e ossos contáveis, deslocava-se por um percurso interminável, com paredes espalhadas por todas as direções, oferecendo apoio e impelindo-a para frente. Ao passar pela janela, o vaso resolveu cair: “droga! Justo agora! Ainda bem que mamãe não está; santa casa de praia...”.
Minutos depois, a menina atracava-se a uma garrafa, sentada no chão de mármore, recostada à geladeira aberta. Sentia a pele transmudar-se em um tapete de arrepios, deixava todo o interior de seu corpo saborear o vapor inalado. Sangue gélido, coração mais calmo, cérebro amortecido, mas voltando a perceber. Por todos os aspectos, o frio era agradável e bem recebido. Com ele chegava, lenta, a lucidez. Clara permaneceria naquele estado o resto da vida, se tivesse uma. Mas não podia; precisava retornar à sua não vida, ao seu dia “comum”. Já passava da hora de examinar os efeitos da diversão de ontem. Dali a instantes, no centro da sala, ela ponderava: “os dois não voltarão hoje. Ótimo: tenho o domingo inteiro pra arrumar isso aqui... Credo! Dessa vez eu pirei, mesmo... Por onde começo?...”
Começou por uma volta mais decidida à geladeira, e por um pedaço de bolo com refrigerante. Sentada no braço da poltrona, ela comia e avistava o cenário como o conquistador que, do alto do fortim tomado de assalto, divisa a destruição que sua conquista exigiu. Como pudera ficar louca o suficiente para fazer tudo aquilo? “Ah, não fiz sozinha!!”— lembrou — “Cadê o Saulo? Nossa, eu esqueci completamente! Saulo! Saulo!!”
Recebeu de volta um resmungo proveniente da mesma cama de onde saíra há pouco.
Acorda, amor! Vem cá...
Minutos depois, a sala recebia um rapaz de vinte anos e aspecto geral parecido com o de Clara. Mais alto, mais velho, mais infantil que a namorada, Saulo, o playboy nu, deixou-se cair na poltrona com uma expressão de dor, levando uma das mãos à têmpora.
Tem um metrô dentro da minha cabeça... E não pára de passar trem...
Tudo bem, amor. Vou te fazer um café e você melhora — gracejou a menina, com um beijo. Em quase duas décadas de vida, Clara aprendeu sobre átomos, mitocôndrias e produtos notáveis, mas cozinhar ainda era um mistério insondável. Saulo, mesma formação de escola-particular-classe-média-alta, retrucou:
Boa tentativa... Sério, morro de rir por dentro... Me vê um cigarro.
Veio o cigarro aceso, junto com outro sarcasmo.
Toma. Cuidado, isso mata.
Não enche, Clarinha. Depois de ontem, nada me mata...
Preciso de ajuda, amor.
Ajuda?
Olha só pra isso! Não está vendo?
Putz! Cê detonou o apê. Com quantas carreiras se faz isso? Vou abrir uma firma de demolição, te contratar e te pagar com pó.
Saulo!
Hum... Tua mãe vai te matar, e, se eu estiver por perto, descarrega a escopeta em mim também.
Pára de brincar, droga! Eles vão chegar amanhã!
E eu não tenho nada a ver com isso! Não quero arrumar bagunça, não quero tomar café e não quero que o mundo pare de girar! Dane-se o mundo inteiro e a tua sala junto!! No momento... No momento, mais importante é te falar uma coisa...
O que é?
Um brilho estranho percorreu os olhos do rapaz, repentinamente lúcido. Saulo retesou-se, impostou a voz e disparou, sem dúvidas, sem pausas, sem olhar para Clara:
Olha, nem sei se é uma boa hora pra dizer, mas não paro de pensar nisso. Devia ter dito ontem, mas não deu. Não deu! Só que isso tá me matando, e uma hora eu teria que me abrir, então lá vai: desde que cê fez o aborto, tem andado estranha. Tá mais aérea, mais fissurada, sei lá. A gente nem cheirava, lembra? Fumava uns baseados pra curtir, pra relaxar; só depois começamos com o pó. Depois do que aconteceu, parece que não há mais nada pra fazer, a não ser beber e endoidar, e eu não sei onde isso vai parar. Não sou santo, tô muito longe disso, mas a gente tá aloprando! Tenho certeza de que teus pais desconfiam, assim como os meus, que já começaram a dar indiretas. Tua mãe deve ter anotado o lugar de toda essa tralha aqui e te deixou sozinha de propósito, só pra conferir depois, pra ver se alguma besteira seria feita.
Clara ouvia, lívida. A fresta na cortina dava passagem a um raio de sol que iluminava o rosto e o colo da menina, aumentando a palidez. Um intruso acidental veria, na sala, um rapaz com as costas pregadas no encosto da poltrona, falando para o nada, com um fantasma a seu lado, escutando. O discurso continuava:
...Até entendo que isso mexe com a cabeça. Eu mesmo não me sinto bem, quando penso... Por isso quero te levar a um psicólogo...
O que é, Saulo, endoidou de vez? Esqueceu que meu velho é psicólogo, e deve conhecer todos os outros da cidade? Quer ir contar os defeitos da minha família, e da tua também, para os conhecidos? Se eu quisesse psicólogo, procuraria conselho aqui dentro, seu imbecil!!! Ao invés de procurar ajuda pra mim, por que você não vai direto a um hospício e se tranca lá? Retardado! Eu...
Eu quero te ajudar, porra! Cê não percebe, mas nós tamos caindo, e, no mínimo, lá no fundo tem concreto. Tá entendendo? Lá no fundo tem concreto, Clara!
É você que não me entende, Saulo. Eu já me espatifei nesse concreto quando concordei com aquilo... Quando o matei... Oh, meu... Eu o matei!
Foi melhor pra ele!! Melhor pra nós!! Nós não podíamos criar...
Não teríamos dinheiro pra criar uma criança? Já prestou atenção nas nossas famílias? Sabe de quem eu sou filha? De quem você é filho? Eu não acredito...
Escute, Clara: eu não falo apenas de comida, roupa ou colégio. Falo da mudança em nossas próprias vidas, do quanto essa mudança nos amargaria, do quanto a amargura seria repassada a um filho que seria visto como o motivo do fim de toda a liberdade e juventude que temos. Nossa raiva seria refletida na educação que, aos vinte anos, daríamos a uma pessoa em formação. No meio de uma montanha de dinheiro, esse filho não seria bem criado. Como eu não fui. Como você não foi...
A resposta de Clara ecoou pela casa. Saulo ainda ouvia o barulho da bofetada que recebera, e, massageando a face vermelha, levantou-se, olhando para a namorada, tentando reconhecê-la. Não conseguiu. Parou de encarar o olhar ríspido, a face em fogo e a respiração ofegante. Andou em direção ao quarto, ouvindo a voz gutural de uma desconhecida, de pé no centro da sala, fora de si:
Ao menos tente ser homem! Finja, se não conseguir!! Reconheça que, por trás desse discurso politicamente correto, se esconde o amarelo do medo! Quando me convenceu a ir àquela clínica, você não pensava em nós, muito menos em criação de filho!! Pensava em você, e na sua maldita liberdade!
Saulo vestia-se o mais rápido que podia.
Jamais deveria ter conhecido você! Covarde! Não me venha falar em criação!! Eu não sou mal criada, você é! Assumo o que faço, não me escondo atrás de mentiras! Você é daqueles que gritam pra quem quiser ouvir: “eu não me importo com notas, só quero aprender”, e na hora da prova colam descaradamente, pra não ficar com nota baixa e passar de ano!! Seu discurso é um, mas a atitude é outra! Nunca deveria ter me convencido a... A... Oh, meu Deus.. Eu te odeio! Odeio!!
Ao sair do quarto, ele recebeu em seu peito os punhos de Clara. Últimos obstáculos até a porta de saída.
Jamais deveria ter sido tão canalha! Não deveria ter me convencido a...
Já à porta, ele olhou para a menina. Ela alternava soluços com o balançar da cabeça, misturando lágrimas, voz, saliva, cabelos, loucura. Teve pena dela. Pena de si. Vergonha também. Em um mundo ideal, ele se enterneceria e abraçaria a namorada, acalmando-a. Partilharia com ela o remorso e a dor que o vazio e o arrependimento traziam. Mas, naquele momento, Saulo encontrava-se no mundo real, irresponsável, estúpido e, agora — “Era só o que faltava” — sempre a um passo de uma overdose que não tardaria. De qualquer forma, quando viesse, ele não estaria lá para ver. “Oh, Clara, me perdoe...”. Ao final do olhar, já estava devidamente revestido com frieza suficiente para sobreviver, e, se por um lado, não sabia ao certo sobre o que sentia pela desgraçada convulsiva, caída ao chão, por outro entendia que sua própria fraqueza o chamava para a vida, para o seguir adiante. Ouviu a fraqueza; cruzou a porta e, sem olhar para trás, deu o golpe final:
Convenci?

II



Meio dia passou até Clara fechar a porta. Perigo nenhum: estava no décimo andar, e o único apartamento era o seu. O telefone estava por perto, mas ela decidiu não ligar: seria humilhante ouvir alguém mentindo, dizendo que Saulo não estava. Saulo acabou. Aquela tinha sido a última conversa entre eles, e tudo havia sido dito com todas as letras. Maior clareza, maior definição, impossível.
Mais calma, acendeu um cigarro. Sentia-se mole, depois do desfalecimento no mármore escuro. Desistiu de ficar de pé: sentada, parede às costas, fumava e, no escuro, observava as formas que a fumaça desenhava no ar. Quase podia distinguir a nicotina, sentindo seu efeito; levemente estimulada, pensou em como seria bom poder voltar no tempo, fazer outras escolhas, corrigir, desfazer, melhorar... Sonho. “Aqui estou eu, a drogada, sonhando outra vez; quando serei capaz de encarar, de frente, a realidade?” Precisava de alguém; não era suficiente escutar a própria voz. Acabara de voltar de um inferno inteiro de culpa, e sentia que sua chegada ao mundo vivo seria mais fácil caso contasse com um ouvido alheio (com sorte, um ombro também). Naquele domingo acordara, pela primeira vez, às 11 da manhã. Acordou novamente por volta das onze da noite. O relógio tocava agora doze notas. Ficasse acordada por mais algumas horas, poderia contar tudo aos pais. “É claro! Quem melhor? Eles me entenderão, e, depois, vivem aqui... Não precisaria me sentir sozinha. Eles me confortariam e, se a barra pesasse, bastaria dar um pulo até o quarto deles, me enfiar sob o cobertor e, finalmente, dormir despreocupada: papai viraria de lado, eu abraçaria suas costas, mamãe abraçaria minhas costas e dormiríamos assim, todos voltados para o mesmo lado, todos juntos, seguros e aquecidos, como já chegamos a fazer... E lá está a drogada, sonhando outra vez...”
É claro que não era só o telefone que estava por perto: havia também a navalha, no armário do banheiro. Um corte rápido, e o lado do pescoço abriria-se num rio carmim. Logo não sentiria nada, e então, sem esforço, sem demora, iria embora gota a gota... “Enfim, um sonho factível. Os meios estão ali, à mão, à espera. Na verdade, por que não?” E levantou-se, cigarro aceso, fumaça no escuro. Olho escuro, sem globo, sem íris; duas órbitas pretas furando um rosto de louça branca, um pequeno brilho em cada uma. Cabeça voltada em direção ao corredor, à suíte, ao banheiro...
Então, através da neblina do fumo, algo chamou sua atenção para a janela na parede oposta: o céu estava claro, iluminado por uma lua incrivelmente cheia. De onde estava, Clara observou nuvens parecidas com o chão arenoso de uma praia, com raias sinuosas desenhadas pelas ondas que passaram. Achou bonito, e quis saber mais: atravessou a sala, caminhando à janela, e viu a cidade banhada por um luar intenso. “Agradável, afetuoso, acolhedor”, pensou, esquecendo sua miséria particular. O cigarro terminava entre os dedos de louça, e a menina encostava o rosto ao vidro, como se, trazendo a lua para perto, ganhasse uma amiga. Mas não pensava mais por que precisaria de amizade, não precisava mais falar sobre a angústia da culpa, nem lembrava mais dela. Só queria, no momento, ser amiga. Da lua. Do que ela fazia com toda a cidade. “Muitas pessoas dormem agora sem saber a paz que as envolve. Como se dormissem aninhadas a pais que não imaginam existir. Como se nada de mal pudesse acontecer em uma noite tão perfeita, tão bem pintada.” Seu rosto pálido acendeu-se ao receber a luz da nova amiga: “Não há barulho, discussões ou dor. Não há erros em uma noite assim. Parece um convite à inocência... Mas, espere: há eu! Eu estou aqui, existindo. O que pode ser mais errôneo e depravado do que eu? Como eu me encaixo em uma noite dessas?”
Sentiu vergonha da lua: era uma intrusa na inefável perfeição do mundo. Saiu da janela, encostando-se à parede. Agachou-se lentamente, porque era imperfeita, e lembrou-se de que devia não existir. “Não deve haver eu! Não hoje. Não depois. Depois do que fiz... O que fiz... O... O que eu ia fazer?... Sim, o banheiro...”
Dizendo isso, levou as mãos ao chão para apoiar o corpo na subida. Ao invés do mármore, ela encontrou terra. “O quê?... Oh, sim, o vaso! Eu o derrubei, de manhã...” Sentiu o veludo de algo mais, e trouxe o achado consigo para cima. Levou a mão à janela para ver melhor: amarela, pequena, ainda viçosa, uma flor que nascera pela manhã encontrava-se agora entre os dedos da princesa suicida. Linda, inocente, lutando pela vida, inerte ao sabor dos delírios daquela irresponsável magra, bela, oca, semi-morta por opção. “Imagine: um mundo ao seu dispor, e a otária queria morrer porque não conseguia lidar com seus erros.”
Ridícula! — gritou-lhe a flor.
O quê? Você falou?
Sim. É minha primeira e última noite, então reservo-me o direito às delícias que eu quiser. Falei, sim. Por que não poderia? Daqui a segundos, quem irá saber?
E suas primeiras e últimas palavras são xingamentos! Quanto proveito, quanto saber! Quão apropriado para alguém tão bela...
Obrigado. Disponha, você merece. Há mais de onde este veio... Quer continuar com o sarcasmo? Por mim, tudo bem. Não sou eu quem ficará sozinha primeiro...
Não, tudo bem, entendi. Baixemos as armas, vamos conversar... Hã... Onde estávamos?
Ridícula!
Não fale assim. Você não entende...
Entendo o que preciso para saber que vou morrer por sua causa, por sua loucura. Vou morrer e você nem mesmo quis isso. Morrer por nada, por acidente... Mas, pelo menos, vou embora sabendo que fui melhor do que você.
Como assim, melhor que eu? Desculpe, mas com toda essa amargura, você não me parece tão melhor. Ao contrário: somos ambas desgraçadas, sem destino ou esperança, mas pelo menos não ataco ninguém em minha hora derradeira. Por que se julga superior, sabendo que estamos igualmente no fim?
Porque não tenho opção! Já faz horas que não sorvo uma seiva, um sal. Quase não tenho água em minhas células engelhadas. Tudo o que me resta é a maciez de minhas pétalas, que logo ficarão secas. Mas luto, falo até; me apego à vida até não poder mais porque sou um milagre da existência. Alguns botões, meus irmãos, meus filhos, jamais abriram, e isso me corroeu de tristeza por pensar que lhes roubei nutrientes. Mas continuei, porque acreditava que poderia significar algo para alguém. Que a mera presença de uma flor bonita poderia mudar o ânimo alheio, e quando me sentisse sozinha este pensamento me redimiria. Você, ao contrário, possui todas as opções: pode escolher se desintoxicar, pode escolher recuperar seus pais ou mesmo aquele playboyzinho sem graça, igualmente frouxo. Pode escolher viver, mas não quer, só porque é mais difícil.
Lamento, querida. Escolhas certas nunca foram o meu departamento. Juro que escreveria milhares de livros de auto-ajuda para flores, se fossem. Não quero que aconteça, mas sempre escolho o errado, como se o mundo só me apresentasse estas alternativas. Daí, tudo o que toco vira pó...
Por isso você resolveu cheirá-lo, não é mesmo? Cheirar o mundo inteiro até que ele faça sentido. Francamente, isso é tão antigo... Tão século vinte... Diga-me: qual é, exatamente, o seu departamento?
Perda.
Sei. Acho que conheço o nome completo. É... Vejamos, como dizem?... Sim, é “Achados e Perdidos”. Perda e encontro, não?
O que você sabe disso com um dia de vida? Quem te contou? O que você sabe do mundo?
Escute: é uma da manhã, sou uma flor agonizante e você está a ponto de se matar. Não desperdice tempo procurando lógica, está bem?
Clara assentiu. Era o cúmulo da carência, ela sabia disso, mas não se importava de conversar com a flor. Algo muito especial promovera este encontro: nunca sentira paz em uma noite de luar, nunca desejara o melhor para quem quer que fosse. Devia, à lua, ao menos paciência com aquela interlocutora vegetal. Devia, afinal, respeito à própria interlocutora, que parecia querer dizer algo antes de morrer.
Então, não devo morrer?
Só se tiver certeza de que sua morte desfará todos os seus erros e confortará as pessoas que te amam. Se for assim, não duvide: detone!
Não combinamos o fim do sarcasmo?
Isso não é sarcasmo, meu bem. É pragmatismo. Ouça, a vida não é um direito disponível, e digo isso sem um pingo de religiosidade: estamos ligados ao mundo, não por lei de algum poder superior, divino, mas por laços afetivos e pela esperança que alguns depositam em nós. Quem sabe disso? Quase ninguém: quem, senão uma flor, pararia para pensar nisso? Ninguém tem tempo, em sua correria diária. Nessa correria, certos conceitos são esquecidos ou não cogitados. É quando erramos: pais que se distanciam dos filhos, namorados cujo dicionário traz “sexo” antes de “compreensão”, meninas que não planejam o futuro e depois se debatem em delicadas questões ético-morais, flores que resolvem germinar no vaso mal localizado; todos erramos, e alguns erros simplesmente não podem ser corrigidos. O que podemos fazer? Tirar algum proveito do que restou, e ser de algum proveito, também.
Sei... Não sou burra... “Tirar algum proveito” quer dizer “aprender”, e “ser de algum proveito” quer dizer “ensinar o que aprender”... OK, mensagem recebida. Algo mais?
Não recebeu resposta. A flor parecia exausta, incapaz de novo esforço. Estava indo embora, e isso, de alguma forma, tocou a menina-moça-mulher, que percebeu ter sido importante o suficiente para que alguém lhe dispensasse os últimos momentos. Desejou mantê-la viva.
Espere, não vá agora... Quer dizer... Bem... Você quer mesmo que retome a minha vida, não é? Quem é realmente você?
Uma flor moribunda. Um espírito divino expresso na beleza da natureza. A consciência de uma drogada sonhadora, lutando para sobrepujar o delírio e dar sua opinião. Que importa o que sou? Pense, e faça o que quiser... Ah, só mais uma coisa...
O que é?
Não se pode retomar o que nunca se teve... Comece do zero, você e seus pais... Mais tarde virão a faculdade, os amores verdadeiros, os filhos queridos. Em seqüência... Um após o outro...
Por que nunca pensei assim?
Porque é da natureza de vocês...
Nós?
Os ridículos...
Só então a moça percebeu a mudança de cor nas pétalas. “Não, ela não mudou de cor... É a luz que mudou, e eu não percebi... Nossa, é sol, já amanheceu, e há muito tempo!! Tanta gente na rua, ocupada e eu aqui, segurando uma flor morta, aquecida por tanto tempo...”
Clara nascera de novo. Desabrochara como a flor que, de certa forma, precisou morrer para que ela começasse a pensar no desafio da vida. Ainda à janela, observava os pequenos transeuntes procurando entender o que acontecera, até que, por fim, desistisse de uma explicação sensata. Uma flor dera o resto de sua vida por ela. Uma flor por outra. Só.
Um riso tímido foi esboçado, e ela acreditava um pouco mais em si. Acabara de ganhar de presente uma vida, “novinha”, e divertia-se com seu novo brinquedo. Como aquela menininha ali, indo à escola acompanhada pela babá. Em uma das mãos, mimosa corrente à qual está atado um minúsculo cachorro, “tão peludo que é impossível, daqui, do décimo andar, encontrar seu focinho”. Enquanto caminhavam, passos rápidos, cantiga, língua microscópica para fora, Clara compreendia o motivo pelo qual a flor nascera. Entendeu que seus prejuízos, afinal, são pequenos em comparação com o que mais tarde obterá; que manterá consigo, até o fim, os efeitos de seus erros, e o melhor que pode fazer é lidar com eles de forma construtiva. Que, enfim, não precisava descer ao inferno para fugir, buscando o frio para voltar à lucidez ou eximir-se de sua quota de participação nos erros que viesse a cometer. Perdera o medo dos erros quando chegou àquela óbvia conclusão de que ainda há lugar para a inocência — e, se esta se perder, a perda só implica em depravação caso seja mal administrada.
E chegaram os pais. E vieram as explicações sobre o estado da casa, a descoberta do vício, os faniquitos, os gritos, os murros na mesa, os impropérios... E a predisposição pela procura do devido auxílio. Isso era suficiente; os outros erros não precisariam ser do conhecimento de ninguém. No final, a segunda-feira foi um dia muito melhor do que o domingo. Todos os demais também o foram.

imagem: google

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Registro no Escritório de Direitos Autorais (EDA),
da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro são:

NASCIMENTO DE UMA FLOR -
AUTOR: RHOBSON CHRISTOPHER -
Registro EDA-BIBLIOTECA NACIONAL/RJ:
471052-04/09/2009.

outubro 10, 2011

Lei do karma (2)



Por Augusto Toshiro Kasahara Omi

As pessoas não crêem na lei da retribuição, pois ela não é instantânea, automática. Se, para cada má ação, o castigo fosse imediato, o homem, certamente, perceberia o funcionamento da lei. Entretanto, não é assim que funciona, infelizmente.

Li, em um livro de Joseph Murphy (um dos que primeiro escreveu a respeito da  denominada “Lei da Atração”), um episódio  que bem demonstra a aplicação  da lei. Em uma certa cidade dos Estados Unidos, um corretor de seguros enganou centenas de velhinhos, surrupiando, com promessas mentirosas, as suas economias. Questionado por um morador sobre o porquê do embusteiro demonstrar cada vez mais prosperidade, o autor não soube responder  na ocasião.
Passados dez anos, mais ou menos, Murphy retornou à cidade. Soube, então, que o criminoso tinha perdido todos os seus bens e estava internado, louco,  em um sanatório. Concluiu ele sobre o evento: os moinhos de Deus moem lentamente, mas moem.

Eu desafio você a analisar a vida de pessoas conhecidas suas. Aquelas  que fizeram o mal, que prejudicaram, que agrediram pessoas indefesas, pagaram, ou não, pelos  seus atos? Não posso nominar, mas você deve ter conhecido pessoas que se preparavam em academias para agredir gente que nada conhecida de lutas. O que aconteceu com elas?

Será que este universo não tem regras?   

O pagamento não se dá, necessariamente,  da mesma forma. Por exemplo, alguém ficou rico prejudicando um outro. Isso não significa que ele perderá, com certeza,  o dinheiro  adquirido. A retribuição pode se dar por meio de doenças, problemas familiares etc. A respeito, transcrevo o capitulo X da livro Dhammapada:

X -  CASTIGO OU VIDA ETERNA – DANDAVAGGA

129. Tremem todos diante do castigo, temem todos a morte. Considerando isto, não mates e não sejas causa de morte.

130. Tremem todos diante do castigo. Temem todos a morte, a todos a vida é cara. Considerando isto, não mates e não sejas causa de morte.

131. Aquele que, em busca da própria felicidade, a outros que também a desejam faz sofrer, não encontrará nesta vida, e em outra qualquer.

132. Aquele que, em busca da própria felicidade, a ninguém faz sofrer, encontra-la-á nesta vida, ou na seguinte.

133. Nunca uses palavras pesadas: cedo ou tarde, a réplica vem e traz o sofrimento de volta, como quem arremessa poeira contra o vento.

134. Se viveres na quietude interior como um gongo quebrado que ficou silencioso, alcançarás a paz do Nirvana e tua cólera será serenidade.

135. Da mesma maneira como o vaqueiro dirige o gado para o pasto, assim a velhice e a morte conduzem a vida dos seres (para uma nova existência).

136. Praticando o mal por ignorância, o insensato esquece que acende o fogo que o queimará um dia.

137-138-139-140. Ofender, ferir ou prejudicar qualquer ser indefeso, ou puro, é expor-se, cedo ou tarde, aos dez seguintes males: Inimizades, penosas dores corporais, graves enfermidades, acidentes, perturbações mentais, questões judiciais, perda de bens, perda de parentes, incêndio da casa: e após a dissolução do corpo, o insensato renascerá no Niraya.

141. O costume de andar nu, os cabelos trançados à maneira dos ascetas, os jejuns, o dormir no chão ao relento, o cobrir-se com cinzas ou poeira, o sentar-se imóvel nos calcanhares (em penitência), as prosternações, nada disso purifica o mortal que não se livrou do desejo e da dúvida.

142. Embora vestido com apuro, aquele que cultiva a tranquilidade da mente, que é sereno, senhor de si, puro e a nenhum ser vivo maltrata, é um santo, é um asceta é um bhikkhu.

143. Haverá neste mundo um tão puro homem que evite uma censura, ou um corcel bem adestrado ao toque do rebenque?

144. Como corcel bem adestrado tocado pelo rebenque, pela confiança, pela virtude, pela energia, pela meditação profunda, pela investigação da Doutrina, pela sabedoria e plena atenção sobrepujamos o sofrimento da existência.

145. Os lavradores abrem valas e conduzem a água para onde querem; os fabricantes de flechas as retificam; os carpinteiros trabalham a madeira à sua vontade; o homem de bem a si mesmo se controla.

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[...]O Buda observou, refletiu e expôs em forma de argumentação suas Quatro Nobres Verdades: Há sofrimento; O sofrimento tem origem no medo e no desejo; A extinção do medo e do desejo extingue o sofrimento; Seguir o Nobre Caminho Óctuplo é eliminar o medo e o desejo[...]


saiba+:
 



Espetáculo para o Dia das Crianças: Ópera Bastião e Bastiana de Mozart (Bastian unt Bastienne)




Dica de Eduardo Rocha, jornalista

Ópera: Bastião e Bastiana, de W.A.Mozart, 13/14/10/2011, às 20h, entrada grátis, no Centro Cultural Sesc Boulevard

O grupo Experimental de Ópera "Cantores em Cena" é uma criação de Madalena Jorge Aliverti e artistas convidados, tem a honra de estrear  seu primeiro espetáculo para o dia das crianças  a  livre adaptação da ópera Bastião e Bastiana de W.A.Mozart (Bastian unt Bastienne).

Bastião e Bastiana é a primeira ópera de W. A Mozart, escrita na idade de 12 anos. A história conta as desventuras do amor de dois jovens camponeses. Que adaptada pelo 'Grupo Experimental Cantores em Cena' trouxe a história para a amazônia, cantada em Português e adaptada para nossos costumes.

O amor entre 'Bastião e Bastiana' (jovens ribeirinhos), sofre um tumulto depois que Bastião resolve conhecer a cidade e acaba se encantando por uma moça. Bastiana, por sua vez, ao sentir-se só, abandonada e insegura por achar que perdeu seu amado Bastião, almeja reconquistar seu grande amor e recorre à ajuda do místico Colas.

Local: NOVO CENTRO CULTURAL SESC BOULEVARD (Em Frente a Estação das Docas ao lado da Antiga Capitania dos Portos)

Entrada grátis - Recomendamos chegar 1 Hora Antes.

Ficha Técnica
Madalena Jorge Aliverti (soprano)
Thaina Souza  (soprano)
Maurício de Souza Jr (tenor)
Severo Almeida  (tenor)
Diogo Monteiro (barítono)
Piano: Leandra Vital
Violão/Sonoplastia/Autor - Carimbó Tema - Bastião e Bastiana: Edir Paes
Percussão:
Araras: Helena Medeiros
Sofia Vital.   
Direção, Tradução, Costumes: Madalena Jorge Aliverti.
Produção: Verena Juliana, Edir Paes.