janeiro 26, 2013

poesia: 'Os morcegos bat' : Nassif Jordy

Os morcegos bat
em
as
as
as
Entre a lua cheia
E minha cabeça
Vazia



Os gritos lancinantes
da coruja da igreja
rasgam as mortalhas
e as batinas


Os duros estalidos das
Estrelas
se confundem
com os mudos gemidos de
Stela

Enquanto os morcegos bat
em
as
as
as
Entre a lua cheia
E minha cabeça
Vazia

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A morte de Ivan Ilicht

A ponte adiante

fúlmen fulminante
pela mais vaga massa
chega de um futuro que
me passa
infla como glória
o instante da memória
quando
a onda fatal
quebra o laço de cristal
e de um só golpe
caio em calmaria
na estrela mais sombria


Nassif Ricci Jordy Filho

- imagem: cris moreno, Biblioteca da Cultura

janeiro 08, 2013

Vannucchi, Chartier e Burke, definições de cultura e cultura popular: Karine Pedrosa


Aldo Vannucchi em “Cultura Brasileira - o que é como se faz” define cultura como a auto-realização da pessoa humana, ação no seu mundo em uma dimensão social que se cristaliza nos planos do conhecimento teórico, da sensibilidade e da comunicação. Roger Chartier em “Cultura popular: Revisitando um conceito historiográfico” entende Cultura como identidades em expressão que lidam com a norma e o vivido, agindo entre sentido visado e sentido produzido. Peter Burke percebe cultura como manifestação humana dependente de variáveis como região, ocupação da pessoa, gênero, língua. Para os três autores há culturas humanas e essas culturas são as práticas e representações.
 
Chartier aponta que a cultura popular é uma categoria erudita que considera as formas de apropriação das identidades expressadas pelos grupos e indivíduos. A expressão popular é uma classificação que é apropriada de diferentes modos, segundo Roger, a cultura popular se inscreve em uma ordem de legitimidade cultural que lhe impõe uma representação de sua própria dependência enquanto Burke percebe a cultura popular como um dos resultados da coexistência de várias subculturas, encontros, conflitos, ou seja, cultura popular dentro de uma medida de relações mais ou menos tensionadas.

Os autores desconstroem os conceitos usuais de cultura popular em busca da compreensão das diversas expressões de humanos e de grupos humanos que, por tal condição de espécie, agem e pensam culturando-se, produzindo e consumindo cultura em dada localidade, com múltiplas variáveis.

O historiador Peter Burke contribui para as atuais discussões antropológicas quando levanta a possibilidade da tradição durkheimiana de olhar a cultura como um todo, desconsiderando as subculturas, cometer o mesmo erro que a filosofia medieval com a ideia de cultura homogênea. Chartier aponta, no séc. XIX, o fato de apesar da mercadorização em massa dos signos da legitimidade cultural o intercâmbio entre cultura letrada e cultura popular perdurou. Para este autor a resposta cultural dos dominados vem em forma de resignação, negação, constatação, imitação e recalque. O alerta para o antropólogo vem com a noção de compreender cultura popular inscrita em um espaço de enfrentamento onde, dominação simbólica, modos de consumo, legitimidade, bem como táticas de produção de sentido estão dispostas em função do tempo e da localidade. A livre criação de sentido flutua sobre os signos linguísticos. É, para Roger Chartier, devida a reconstrução de regras e limites para a representação letrada do popular. A Cultura popular está fortemente unida a cultura letrada, aquela é, pois, objeto desta.

Em “Cultura Popular: revisitando um conceito historiográfico”, no trecho “O que mudou, evidentemente, foi a maneira pela qual essas identidades puderam se enunciar e se afirmar, fazendo uso inclusive dos próprios meios destinados a aniquilá-las”, em que Roger Chatier refere-se aos hábitos, sentidos e pensamentos dos povos sujeitos as culturas reformadas, contrarreformadas e absolutistas que fazem parte da “grande narrativa histórica da civilização ocidental”, faz-se evidente a capacidade de adaptação do popular.

Menos rígida, menos interessada em complexas estruturas para a manutenção da dominação, as formas de manifestação desses povos puderam acoplar-se aos signos impostos, não alterando o significado, mas viabilizando pelo significante um código metafísico, mais ou menos compreendido pela rigidez da cultura letrada. A categorização da cultura popular dentro da cultura erudita é um recurso de produção de conhecimento que, tipificando, tenta perceber e situar a ação humana em reação à dominação. Essa reação precisa ser desvendada, classificada e inserida em um contexto cultural erudito para que se prossiga o processo de dominação, a incorporação dos saberes/fazeres vem após a tentativa falha de aniquilamento cultural.

Os códigos dos diferentes povos que entremeiam as manifestações culturais brasileiras decifram-se via compartilhamento de experiências da vida material, nem são apenas facetas da cultura dominante, nem tampouco independentes desta, estão inscritas nos símbolos nacionais e são significantes na experiência e pela experiência compreendidos.


janeiro 01, 2013

Estudando Giddens: Karine Pedrosa


Em “As consequências da modernidade”, Anthony Giddens faz uma leitura da sociedade por meio das teorias mais difundidas na sociologia e acrescenta seu olhar sobre a modernidade a partir de um plano de análise institucional. Sua argumentação é abstrata-geral, pois a instituição de que fala é a própria modernidade, no entanto, Giddens utiliza argumentos empíricos-descritivos, visto que, a modernidade, de que fala, é conceituada como um estilo, um costume de vida que opera na organização social da europa, a partir do séc. XVIII e se expande no tempo e no espaço, afetando o mundo de forma globalizante e totalitarista.
 
Giddens está interessado em compreender a natureza da modernidade para diagnosticar suas consequências e entende que alguns pontos de vista dominantes na sociologia, enquanto disciplina voltada para o estudo da vida social moderna enfrentam dificuldades nos debates sobre modernidade e pós-modernidade. Para o autor, a modernidade está ligada ao evolucionismo por meio de uma história totalizada que dá consistência a grande narrativa e agrega o governo totalitário as suas características fundamentais, contemplando a militarização de forma sem precedentes.

Relembrando os conceitos de Marx, Weber e Durkheim para sociedade e modernidade, Giddens conclui que “O dinamismo da modernidade deriva da separação do tempo e do espaço e de sua recombinação em formas que permitem o zoneamento tempo-espacial preciso da vida social. O autor desenvolve esta ideia argumentando que a modernidade caracteriza-se pela padronização mundial do tempo, gerando por meio das instituições locais moldados por determinações extra-espaciais, um desencaixe que incita a progressiva diferenciação interna. Conceito fundamental para que as instituições possam exercer essa influência é o de confiança, que nesse caso remete a crença e fé, a modernidade caracteriza-se por uma separação entre pensamento e ação, a reflexividade na modernidade gera “contínua produção de auto-conhecimento sistemático, (mas) não estabiliza a relação entre conhecimento perito e conhecimento aplicado em ações leigas”.

Para Giddens, em seu tempo, pensar a descontinuidade é fundamental e nessa descontinuidade da modernidade que o autor percebe a emergência de uma pós-modernidade que exprima a transição dos períodos, o fim da história, da grande narrativa ocidental, o declínio da hegemonia global europeia, os esvaziamentos do progresso pela mudança contínua, o controle declinante do ocidente sobre o resto do mundo, a dissolução do evolucionismo anunciando o reconhecimento de uma reflexividade meticulosa e constitutiva.

Fonte: Karine Pedrosa