julho 26, 2013

Poesia: Lúcio Flávio Pinto


À sombra do arco-íris

Olho o tempo, o sol,

meu quarto. Olho

os homens apressados e suas

panaceias, os ácidos lisérgicos, o político

pregando a honradez. Um homem

caminha pela chuva com seu chale

de turmalinas. Todos olham

e eu não sei por que

estas coisas me interessam.

Junto à tabacaria as crianças

já não se importam que os adultos

descubram metafísicas

no papel prateado de enrolar chocolate.

Ontem à tarde eu ri –

                                    pulmão distendido, alguém

me disse que os jovens são capazes de milagres.

Me arrependi

                       em seguida

                                          como sempre

mas não chorei

desta vez.

Andei sem rumo pelas ruas

e

numa esquina

um índio carajá tropeçou em mim,

pediu desculpas

e todos riram.

Menos eu.

Reuni os amigos e declarei, solene:

a vida não é nada disso.

Ninguém acreditou

Nem pude exigir atenção: afinal, me disseram,

o ar está carregado de negativas.

Sugeriram alka-seltezer

mas eu lembrei:

décadas antes

a moda (

sorri

)

era o éter. Hoje

ninguém espera colher flores

no arco-íris.

Tentei encostar minha cabeça

no primeiro ombro desocupado

mas o dono era magro,

pediu desculpas

para meus olhos encrespados

e se foi.

Quando a manhã se espichou

por entre as árvores

tentei seguir o caminho

e caminho não havia:

me perdi

outra vez


(1967)

Poesia: Eduardo Rocha


Vida

A vida não é para se perder
Não é para se trocar ou se vender
A vida é para se embalar na Rede
Beijar a cada dia qual a mulher amada

A vida é para se perder de vista

Cantar em prosa e verso, ao violão
Beber cada gota no deserto
Sonhar a cada dia, em cada noite
A vida não é para se emprestar

É para morrer comigo!
É para viver comigo!
 
02/4/2013

julho 16, 2013

Pensamentos:



Azar Nafisi:
'É assim que eu vejo o passado: como uma escavação. Você passa o cascalho na peneira, cata um fragmento aqui, outro ali, etiqueta-o e registra o local onde o encontrou, anotando a hora e a data da descoberta. Não são apenas as fundações que busco, mas algo a um só tempo mais e menos tangível.'

[O que eu não contei/Azar Nafisi, tradução de Mauro Pinheiro - Rio de Janeiro: Record, 2009]


Da Carta de Pero Vaz de Caminha:
'....Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências....' - '....Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao convívio com o homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos tanto, com quanto trigo e legumes comemos....'

[A Carta de Pero Vaz de Caminha/Silvio Castro - Porto Alegre: L&PM, 2003]
 Claude Lévi-Strauss: 

'As sociedades modernas não são completamente inautênticas - o antropólogo se empenha em detectar e isolar níveis de autenticidade'.

[A antropologia diante dos problemas do mundo moderno/Claude Lévi-Strauss; apresentação Maurice Olender; tradução Rosa Freire d'Aguiar - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012]
  
 Edgar Morin:  
´Sentimos uma insatisfação profunda diante de toda observação que não está em movimento e que não se observa a si mesma, todo pensamento que não enfrenta suas próprias contradições, toda filosofia que se reduz a verdades absolutas e que não se questiona a si mesma, toda palavra particular que se isola do devir mundial'.

[Meus demônios/Edgar Morin; tradução de Leneide Duarte e Clarisse Meireles - 5ªd. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010]

Steve Jobs:
 'Entrei na faculdade logo depois dos anos 60 e antes que começasse toda essa onda de pragmatismo. Agora os estudantes não estão nem pensando em termos idealistas, ou pelo menos muitíssimo menos do que antes. Com certeza não deixam que as questões filosóficas do momento tomem tempo demais....[mas o vento idealista dos anos 60 ainda sopra atrás da gente, e a maioria do pessoal que conheço e é da minha idade tem essa coisa entranhada para sempre].... '

[Steve Jobs/Walter Isaacson; tradução Berilo Vargas, Denise Bottmann, Pedro Maia Soares - São Paulo: Companhia das Letras, 2011]

 Georges Canguilhem:
'Do ponto de vista da saúde e da doença, e, consequentemente, do ponto de vista da reparação dos acidentes, da correção das desordens, ou, falando popularmente, dos remédios para os males, há a seguinte diferença entre um organismo e uma sociedade: é que, no caso do organismo, o terapeuta dos males sabe, de antemão e sem hesitação, qual é o estado normal que deve ser instituído, ao passo que, no caso da sociedade, ele o ignora.'

[O normal e o patológico/Georges Canguilhem; tradução de Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas; revisão técnica de Manoel Barros da Motta; tradução do posfácio de Pierre Macherey e da apresentação de Louis Althusser, Luiz Otávio Ferreira Barreto Leite - 7ª ed. - Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011]
 Jean-Paul Sartre: 
'Não há, não poderia haver imagens na consciência. Mas a imagem é um certo tipo de consciência. A imagem é um ato e não uma coisa. A imagem é consciência de alguma coisa.'

[A imaginação/ Jean-Paul Sartre; tradução de Paulo Neves - Porto Alegre, RS: L&PM, 2011]
  
 Hannah Arendt:

'A história conhece muitos períodos de tempos sombrios, em que o âmbito público se obscureceu e o mundo se tornou tão dúbio que as pessoas deixaram de pedir qualquer coisa à política além de que mostre a devida consideração pelos seus interesses vitais e liberdade pessoal'.

[Homens em tempos sombrios/Hannah Arendt; tradução Denise Bottmann; posfácio Celso Lafer - São Paulo: Companhia das Letras, 2008]